Qual a importância das vistas que se descortinam a partir das janelas dos lugares que habitamos?

Quando abrimos uma janela, mais do que liberar a passagem de ar temos a intenção de aproveitar um brevíssimo momento de liberdade, quase como um voo efêmero ao ar livre. Desfrutar elementos visuais belos, sejam construções justificadas por projetos arquitetônicos equilibrados ou vegetação, texturas e mobiliário em jardins bem compostos, torna as janelas mais do que utilitárias para a higiene da habitação mas, principalmente, canais através do que esses momentos são únicos. As cores mudam conforme a luz, que muda conforme o sol, que muda ao longo do dia e, muitas vezes, fica escondido entre nuvens que também se precipitam em chuvas. Ou seja: achar que toda a vez que olhamos pela janela vamos ver a mesma coisa, é um erro, pois as cores vão mudar, os movimentos de pessoas e veículos são igualmente diferentes a cada instante e manifestações da natureza eventualmente nos surpreendem, seja por florescências, por movimento de pássaros ou por transformações sazonais.

Assistindo ao filme “Ruth e Alex” (EUA, 2014), protagonizado por Diane Keaton e Morgan Freeman, em determinado momento ele abre a persiana em uma janela de apartamento onde estavam para buscar uma nova residência e se depara com um edifício em frente, um bloqueio à possível paisagem a partir dele. Ao pretenderem mudar de um apartamento no quinto andar de um edifício sem elevador, que já começava a limitar o desempenho físico por serem já idosos, o valor da vista que descortinavam das janelas ficaria para trás, uma paisagem que se transformara ao longo dos 40 anos que já viviam lá. Ele pensa que “… novas vistas deveriam ficar com os jovens, para os quais haveria ainda muito a descobrir…”. Mas a sensação de perder momentos importantes naquele lugar onde envelheciam ainda os incomodava, especialmente a ele, um artista que pintava retratos de pessoas “verdadeiras”.

Submeter-se a exigências de mercado ou a opiniões sobre “o bom e o ruim” dos lugares que moramos, geralmente coloca em xeque o significado do período da vida que passamos nesses lugares. Além das vivências, colecionamos objetos, imprimimos nossos hábitos e marcamos território com habilidades e competências que caracterizam nossa personalidade. Outro aspecto importante, e que se destaca no filme, é a familiaridade com o bairro, onde se ampliam relações através de encontros eventuais ou recorrentes com outras pessoas da vizinhança. Quando há vínculos significativos com o lugar, a dificuldade em subir escadas pode tornar-se um problema menor, gerenciável em prol da manutenção dos pequenos prazeres que estabelecemos ao abrir janelas. Sendo não somente elementos de passagem, mas de conexão com o mundo, onde a natureza se transforma, a comunidade cria novas dinâmicas e nossas relações sociais se expandem a cada mudança. As vistas não são somente para deleite, elas representam nossa história, a que já está escrita e a que ainda podemos escrever.

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