Quando convivemos sob o mesmo teto, a relação entre os moradores estabelece condições para que haja um lar?

O ser humano é, por natureza, angustiado por dúvidas e elucubrações que o acompanham por toda a existência, com entrelaçamentos que justificam ações, comportamentos e ideologias. Sendo assim, a famosa dúvida do personagem Hamlet, de Shakespeare, sobre “Ser ou não ser: eis a questão…” ilustra o quanto a incompletude da existência pode suscitar reflexões tão essenciais!

Aproprio-me do texto do colega arquiteto Elvio Garabini (Facebook, 21/02/2017), com a questão principal colocada em letras maiúsculas:

“O QUE É UM LAR? Uma casa, a home, é o refúgio, o abrigo, o lugar da comunhão do núcleo familiar, mas não deixa de ser delimitado, destinado a moradia. Um lar é muito mais que uma casa.”

Moradia é o lugar que criamos em torno do nosso corpo. É construção, coberta ou não, que desenha trajetos e funções, determinando modos de ocupar seus interiores nas mais diversas condições. Por esse motivo, podemos perceber culturas específicas nas diferentes propostas arquitetônicas: casas refletem comportamentos quando as analisamos em relação a dimensões, equipamentos, materiais e distribuição de espaços. Porém, atendem pessoas de diversas faixas etárias de acordo com seus desejos e necessidades, que podem variar da infância à velhice.

Uma moradia pode ser desprovida de convivência, sem o necessário compartilhamento de áreas que a presença de outros moradores exigiria. Também pode oferecer condições ambientais ajustadas pelas preferencias pessoais, considerando manter janelas abertas ou cobertas por cortinas, controlando a luz e a ventilação natural. Ou, em contrapartida, utilizar recursos tecnológicos que estabelecem consumos adicionais de energia, embora sejam discutíveis no momento em que muitos recursos caminhem para a extinção. Mas uma moradia pode abrigar um grupo, consanguíneo ou não, mas que estabelece regras de convivência para que idiossincrasias sejam toleradas e limitadas a espaços privados. Ou seja: mesmo uma família, composta por pais e filhos de duas ou três gerações (quiçá quatro…), necessita estabelecer essas regras, indispensáveis para suportar uma convivência pacífica e produtiva.

Das palavras do eminente colega destaco “o lugar da comunhão do núcleo familiar”, e resgato alguns pensamentos já abordados em textos anteriores. Nem sempre a convivência entre gerações é positiva, e o velho muitas vezes acaba sendo relegado a planos secundários, como se fosse apenas tolerada sua presença. A falta de papéis produtivos no lar torna a casa somente um abrigo, apenas para proteger esses indivíduos frágeis contra os perigos da rua. Um lar estabelece uma cadeia de direitos e deveres que podem garantir o atendimento às necessidades, mas também reconhecer os desejos, aqueles que se transformam ao longo da vida e podem ser, até mesmo, mais frugais na velhice. Um lar é, sim, muito mais que uma casa…

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