O medo da violência urbana estimula o cidadão idoso a preferir shopping centers ao invés da rua?

Refletir sobre o uso da cidade se torna, a cada dia mais, uma necessidade para quem deseja visualizar as alternativas de moradia na velhice, tanto para si mesmo como para um ente querido. Atualmente vivemos em cidades que priorizam os carros em detrimento dos pedestres, mesmo havendo parques e espaços públicos para usufruir momentos de lazer. A questão é chegar lá com segurança, considerando a qualidade das calçadas e da iluminação pública, a facilidade em atravessar ruas e orientar-se nelas, a confiança em percorrer trechos seguros e controlados: enfim, ter prazer em deslocar-se sem a sensação de que a rua é hostil e que é preciso sair dela o quanto antes.

O advento dos shopping centers vem como resposta a esse contexto, criando-se calçadas artificiais que simulam ruas onde não há carros embora haja esquinas, não há “estranhos” embora esteja aberto a todos, não há desorientação embora o apelo comercial seja maciço e possa confundir. O clima é sempre ameno em temperatura, não havendo alteração em qualquer época do ano, o que provoca até mesmo uma ruptura na sensação de tempo, já que a iluminação atende as necessidades quer de dia ou de noite. A artificialidade oferece, até mesmo, espaços de estar em áreas de encontro, o que pode sugerir a possibilidade de socialização ou, simplesmente, de permanecer para observação de atitudes e modas.

Se pessoas de todas as idades podem preferir essa busca de uma “rua perfeita”, mais argumentos ainda poderiam ter pessoas idosas. A mobilidade e a tolerância diminuem, o desejo de evitar contratempos aumenta e a sensação de usar o tempo livre sem pressões podem ser, de fato, decisivos para essa escolha. Apesar de haver um modelo arquitetônico repetido internacionalmente nos mínimos detalhes, ainda assim a sensação de “novidade” a cada visita atrai consumidores de variados produtos comerciais. Enfim, perambular por shopping centers pode mesmo ser divertido e cativante para aqueles que aceitam a artificialidade das tecnologias contemporâneas.

Porém, a cidade pulsa com seus defeitos e virtudes. Há pessoas vivendo suas angústias, tal como quem tem olhos para perceber que uma comunidade é composta por diversidade, seja etária, social, econômica, cultural, de gênero, racial e de temperamento! Esta é a riqueza da cidade, muito mais do que a perfeição exigida pelos grandes estabelecimentos comerciais que, mais do que produtos, vendem experiências. E geralmente elas custam caro, e são limitadas. Apesar de a violência urbana ser uma triste realidade, somos também responsáveis por ela à medida em que “fugimos” da rua e nos escondemos em recantos artificiais, em busca do mundo perfeito. Fazemos isso onde moramos e repetimos onde queremos nos divertir, em momentos de alegria previsíveis e nem sempre satisfatórios. Cabe pensar em cidades caminháveis, é fascinante imaginar que podemos usar a cidade e garantir excelentes experiências gratuitas.

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