Como garantir que um espaço planejado para ser acessível mantenha o aconchego e seja bonito?

Há alguns dias publiquei uma solicitação para que os leitores sugerissem temas de interesse sobre a moradia para idosos e, com muito prazer, recebi da Carolina Machado uma sugestão muito instigante. Sendo ela uma jovem e talentosa arquiteta, atuando tanto em projetos de edificações quanto em interiores, relatou que encontra resistência de clientes mais maduros quando sugere que haja adequações dos espaços para a redução de mobilidade, de modo a garantir espaços acessíveis em quaisquer condições de saúde.

“… me deparei com o constrangimento que paira no ar logo que sugiro tais adaptações. Em primeiro lugar, acredito que pelo fato de que a ideia de precisar de espaços adaptados traga junto consigo a carga negativa de possíveis limitações físicas, doenças e a lembrança de que somos mortais. Penso que, por este motivo, as pessoas sejam resistentes com essa possibilidade, boa parte das vezes afirmando que tais adequações são desnecessárias.”

Concordei com ela sobre essa impressão de incapacidade com base nas experiências que vivo quando falo em barras de apoio nos banheiros: geralmente a reação é de negação. E não somente idosos manifestam um sentimento negativo, jovens julgam que essa seria uma necessidade unicamente para pessoas com baixa mobilidade, mas esquecem que podem viver um mal estar por cansaço, doença ou, até mesmo, por embriaguez ou limitações físicas temporárias. Portanto, o desenho universal que perpassa pela acessibilidade é para todos!

“Outro motivo que percebo, é que os espaços acessíveis trazem consigo a falta de aconchego, por exigirem circulações mais alargadas e pouco mobiliário, tornando-se frios e “sem graça”. Isso se confirma quando escuto relatos, como de uma professora da hotelaria aqui de Pelotas, afirmando que os hotéis têm mais dificuldade de ocupar os quartos acessíveis, pois as pessoas em geral preferem os outros sem acessibilidade.”

Carolina sugere esta discussão porque, certamente, não podemos desvincular acessibilidade de prazer estético, lembrando que uma boa arquitetura baseia-se em funcionalidade, beleza e durabilidade, tal como Vitrúvio proclamou em De Architectura (séc. I A.C.). Propostas acessíveis integradas com mobiliário, acessórios e revestimentos podem oferecer resultados que atendam aos desejos e às necessidades dos moradores em quaisquer idades, estando preparados para mudanças ao longo da vida.

O modo de propor espaços amigáveis mais acessíveis é, sim, um desafio aos arquitetos. O arquiteto Luiz Carlos Correia da Silva sugere que a conscientização sobre a perda de capacidades seja uma necessidade na relação entre o arquiteto e o cliente, considerando nossa responsabilidade como articuladores de espaços construídos. Concordo mas lembro que somos seres preconceituosos por natureza: cabe a cada indivíduo ser capaz de perceber seu envelhecimento, preparando-se para momentos de maior fragilidade, quando o conforto torna-se ainda mais importante no bem-estar.

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