O que podemos aprender ao observar diferentes comportamentos de pessoas que circulam pelo metrô de São Paulo?

Em 2006 publiquei um ensaio sobre situações emblemáticas que observei em estações do metrô de São Paulo. Intitulado “Sabedoria Moleca”, nesta semana resgato para o blog Ser Modular.

“Viver numa cidade diversa, confusa e atribulada como São Paulo certamente torna-se um motivo (natural e espontâneo, diga-se de passagem…) para que seus cidadãos sejam desligados das sutilezas comuns, quase imperceptíveis, que ocorrem com os indivíduos no meio da multidão. Nela não só as atividades passam desapercebidas: passamos todos como homens e mulheres autônomos, carregando crianças e pacotes com a mesma emoção. Nas ruas do centro, nos shoppings, no vai e vem frenético da Avenida Paulista, seja onde for o lugar que reúna mais de um habitante por metro quadrado: há muitas culturas, diferentes idades e todo tipo físico com sua respectiva indumentária como referência. Mas é nas estações do metrô que se pode perceber a verdadeira identidade, denunciada pelas atitudes inesperadas de indivíduos aparentemente comuns, e é ali, então, que certas imagens ficavam impressas na minha memória, raros prazeres presenteados à observação. De muitas, três são particularmente especiais, cada qual ao seu modo.

Certa feita, ao tomar o trem na primeira estação junto ao terminal rodoviário, percebi que não era a única apreensiva com a chegada após horas de viagem e ansiosa pelo prosseguimento para cumprir objetivos. Havia outros, carregados também e com olhares intranquilos, mas entre eles um homem portava-se diferente, como quem viaja de férias. Pareceu-me uma atitude desconexa, quase um deboche à situação da maioria, alguém sem compromisso até consigo mesmo. Enquanto pensava sobre isso uma atitude inesperada: ele levanta-se e oferece o lugar a uma senhora bem composta, altiva nos seus supostos 70 anos de idade. Ela aceita e ele, gentilmente, desvia para dar-lhe espaço e sentar. Aquele homem antes relaxado e despretensioso transforma-se num cavalheiro despojado, mas como poucos. Foi uma agradável surpresa após aquele julgamento sumário…

Em outra ocasião, recentemente, desembarquei na estação de transbordo para a outra linha, onde uma multidão se movimenta, entrando e saindo. Cuidava a escada de melhor movimentação e agreguei-me àquela massa humana afunilada pelo acesso restrito. Nesse instante percebo o desembarque de um cadeirante, um jovem negro de braços fortes e ágeis a movimentar uma cadeira cambada, própria para esportes. Rapidamente ele passa por mim e o avisto ultrapassando uma demarcação de limite e tomando outra escada rolante, mais estreita, onde se apoia somente na esteira de mãos e nas rodas sobre um degrau. Ele tomou o outro trem pronto para partir, e eu o perdi (veja só…).

Mas a situação mais divertida e comovente aconteceu num trecho e horário com pouco movimento, e talvez por isso tenha prendido minha atenção. Havia lugares vagos, eu mesma permanecia sentada quando observei um senhor, talvez beirando os oitenta anos de idade, mas com uma postura muito peculiar. Trajava um terno cinza alinhado e levava um guarda-chuva nas mãos. Mantinha-se em pé, como que pronto para desembarcar, mas não o fazia a cada abertura das portas. Porém colocava meio corpo para fora, como quem desafia a tecnologia e as regras, calculando o tempo a cada sinal e saindo num rápido movimento no instante de fecharem-se as portas. Aquilo se repetiu, chamou-me mais a atenção. Tive a nítida impressão de que ele sorria, tal qual Monalisa. Teria Leonardo da Vinci provocado um sorriso moleque em sua musa?

Assim como a elegância que revestia aquele homem de cabelos brancos, notava-se um olhar vivo e uma certa molecagem no sorriso contido, que compunham uma expressão de amor à vida, recuperando tempos perdidos, atitudes controladas, vigilância social. Quem sabe se ele, ao ver-se livre pelo anonimato, teria resolvido aproveitar sua sabedoria para arriscar um pouco mais? O que haveria a perder? Só a ganhar: o prazer de transgredir sem culpa, de viver a velhice como dádiva e de experimentar novas emoções. Decisões de um sábio que descobre quão pouco é possível aproveitar-se da vida. Talvez somente o prazer das molecagens.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.