Como modernizar as cidades, se são compostas com edifícios que representam a sua história?

Mário Quintana, poeta gaúcho com frases fortemente inspiradoras quando falamos de memória e história, registrou uma ideia muito instigante:
              “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente…”
Simples, não? Mas vamos explorar com profundidade o que essa ideia pode significar quando pensamos sobre nossas cidades, em especial considerando que muitos aspectos deveriam mudar para que se privilegiassem as pessoas. Nesse caso, os antigos edifícios, as praças e seus monumentos, os marcos referenciais de momentos da história, jamais podem ser esquecidos, pois é conhecendo o passado que desenhamos o futuro. A cada geração, esses elementos marcantes podem manter viva a memória dos acontecimentos que resultaram no que reconhecemos como nossa própria trajetória, especialmente quando temos familiaridade com o lugar.
Reconhecer percursos é manter referências importantes quando indivíduos idosos passam a necessitar de maior acessibilidade, mais tempo em travessias e lugares de orientação para que mantenham a autonomia e a independência. É evidente que não se mantêm paisagens sempre iguais, há os efeitos do clima, há renovação de elementos vegetais decorativos e há a presença, a cada dia mais, dos veículos para transporte público ou privado, o que transforma também os fluxos e a ocupação das vias públicas. E estamos à mercê dessa ocupação desenfreada: os desenhos das cidades têm mantido o privilégio às máquinas, atemorizando esse ser frágil e indefeso chamado pedestre, tanto mais quanto mais necessidades especiais ele apresentar.
Os urbanistas que apresentam teorias para superar essa falta de espaço seguro para o pedestre propõem que haja uma limitação no alcance dos veículos usados individualmente, aumentando a rede de transporte de massa, desde que seja confortável, limpo e seguro. A linha do Veículo Leve sobre Trilhos – VLT, implantada no Rio de Janeiro para atender as demandas do período das Olimpíadas em 2016, mostraram o quanto uma transformação inteligente pode renovar uma região sem retirar elementos da memória, mantendo a característica original mas num novo desenho, oferecendo mais espaço para o pedestre e estimulando para que ocupe essas áreas, numa convivência pacífica com os meios de transporte. Para pessoas idosas, uma praça antes degradada junto ao porto tornou-se um ponto de encontro para lazer cultural, possibilitando atividades públicas seguras e interessantes.
Não há como negar que, a partir da reconfiguração urbana realizada por Jaime Lerner em Curitiba, a reflexão sobre a necessária mudança no desenho das cidades tornou-se urgente, visto que a sociedade já vem mudando e exige que os lugares acompanhem as novas demandas. Somos um país com longevidade crescente e, portanto, a história não pode ser apagada. Assim, renovar é preciso, em especial quando sabemos que, a cada dia mais, estes idosos estarão nas ruas, ocupando seus lugares.

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