Os bancos instalados em praças e calçadas são úteis para estimular a caminhabilidade ou sugerem outros usos?

Quando falamos em caminhabilidade, coloca-se em questão a percepção do pedestre ao longo dos trajetos a serem vencidos em seus deslocamentos. Trata-se da qualidade dos lugares quanto à acessibilidade e à atratividade para o deleite, considerando-se segurança, conforto e desejo de interagir com o meio. Fala-se muito sobre a necessária atividade física ao longo do envelhecimento, o que pode garantir uma boa velhice pelo condicionamento da massa muscular que naturalmente é perdida, tanto mais quanto menos haja o exercício. Também sobre a importância dos encontros sociais, com familiares e com amigos, além da possibilidade de manter ou ampliar a rede de suporte através da convivência rotineira entre vizinhos ou com pessoas que atendem idosos em estabelecimentos comerciais de bairro. O estímulo para que haja caminhadas que ofereçam boas condições para esses objetivos sempre vai depender do que se espera encontrar nesses trajetos, em especial considerando o tempo livre ampliado pela aposentadoria e pela diminuição da velocidade das ações empreendidas. Assim sendo, calçadas estreitas, fluxo intenso de veículos e mobiliário urbano inadequado acabam por contribuir para que sejam sempre associadas a objetivos pontuais, raramente significando a oportunidade de um passeio contemplativo ou o encontro com outras pessoas, em especial de gerações diversas.

Há um discussão muito significativa quanto à instalação de bancos em espaços públicos que possam ser caracterizados como áreas de estar, seja em praças ou em locais disponibilizados através de gentileza urbana. A possibilidade de haver a instalação de uma moradia provisória por moradores de rua sugere a inexistência de bancos ou que sejam construídos de modo a não permitir que um indivíduo consiga deitar nesse assento. E aí a discussão se amplia: bancos “anti-mendigos” têm formas que impedem a ocupação em cima e embaixo, mas sempre haverá uma solução quando a necessidade ou o desejo obrigar à busca de um abrigo provisório. Há sentido, então, na criação de peças feias pelo simples fato de impedir o uso dessas pessoas? E se, ao invés de investir em estratégias para afastar moradores de rua, houvesse mais bancos e arranjos atraentes para o uso intensivo de pedestres, configurando espaços mais caminháveis? Jane Jacobs, em “Morte e Vida das Grandes Cidades”, destaca que o bairro mais seguro é aquele que tem pessoas na rua, o que acaba por criar um controle social natural e espontâneo, tornando mais aprazíveis os locais de permanência.

Poder contar com espaços para tomar fôlego ao longo de um trajeto que pode ser mais longo e interessante certamente estimula o prazer da caminhada e pode afastar boa parte do pavor que muitos cidadãos sentem ao pensarem na presença do criminoso em lugares que são de todos. Mais espaços de convivência aumentam a familiaridade e o necessário apreço à cidade, parte maior do que chamamos de lar e sujeito ao cuidado de todos, com menos prioridade aos veículos motorizados e mais lugar para estar.

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