As representações da velhice mantêm os mesmos preconceitos quanto às relações familiares e aos modos de morar?

A peça teatral “O Pai” (Le Père, França, 2012) foi escrita pelo jovem dramaturgo Florian Zeller e está atualmente encenada no Brasil com a brilhante atuação de Fúlvio Stefanini como protagonista. Inicia na residência desse personagem, que recusa os serviços de cuidadoras profissionais por insistir estar autônomo e feliz, embora confuso. Por não conseguir atender às necessidades do pai, a filha o leva para morar em sua casa, mesmo estando em novo relacionamento e em outro momento da sua vida. Aí surgem as situações mais difíceis, com cenas em que os personagens se alternam em diferentes atores, ilustrando sentimentos que a demência provoca quando há dificuldades em reconhecer os próprios familiares, incluindo os parceiros da filha. Além disso, sugere que outra filha, de quem ele manifesta muita saudade e apreço, já morreu em um acidente, mas ele registra somente o tempo em que ela o visitava e a preferência dessa em relação àquela que o cuida. A relação torna-se insuportável, em especial pelo ponto de vista do genro, que sugere que o pai seja encaminhado para cuidados em clínica geriátrica. A demência avança e o contexto profissional sugere que, mesmo com o aumento da fragilidade tanto física quanto emocional, ele está confortável, dançando feliz ao final do espetáculo.

O filme “A Viagem de meu Pai” (França, 2015) é baseado nessa peça teatral e as situações apresentadas são semelhantes: o pai é um homem de 80 anos que já não é mais o grande industrial de antigamente e não pode viver sem a ajuda de cuidadores, que ele afugenta por julgar sua vida tão normal quanto antes. A filha não quer coloca-lo em asilo e igualmente suporta a menção constante sobre preferir a outra filha, que há muito não o visitava, e quem ele decide rever viajando para a Flórida. As dificuldades no relacionamento, em especial considerando a dedicação da filha que abdica de projetos pessoais para atender os desejos e manias do pai, é a tônica desta viagem, que representa um percurso geográfico mas, também, emocional, com o objetivo de encontrar a paz e o entendimento entre os personagens.

Extraem-se duas questões fundamentais a refletir quanto à moradia na velhice: a mais evidente é a tentativa de ajustar desejos e necessidades entre sujeitos de gerações diferentes, situação agravada quando há demência e uma “morte em vida”, como diz a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva em seu livro “Mentes Depressivas” (São Paulo, Principium, 2016), justificando o luto e suas consequências daqueles que não são mais reconhecidos por idosos que têm confusões de memória. A segunda é a visão ainda preconceituosa sobre moradias coletivas para idosos, onde o cuidado deve ser respeitoso e adequado, conferindo paz e equilíbrio pela condução por pessoas treinadas para o trabalho. A ideia de asilo ainda persiste, assim como a culpa em optar pelo cuidado profissional, questões a serem mais esclarecidas para que a vida dos familiares continue com a manutenção dos seus objetivos em busca da felicidade.

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