Por que as decisões sobre desejos e necessidades pessoais tornam-se mais fáceis na velhice?

No filme “Rio, Eu te Amo” (Brasil, 2014), várias histórias curtas são assinadas por diferentes autores e diretores, o que imprime uma sensação de “pout pourri”, embora aconteçam envolvendo personagens que se encontram ao longo da trama. Apresentam situações de aventura, romance e comédia, mas a sensualidade percorre toda a sequência e enfatiza o temperamento criativo do brasileiro. Dois personagens chamam a atenção quanto ao enfrentamento dos limites impostos pela velhice e suas estratégias para superá-los.

Dona Fulana, interpretada por Fernanda Montenegro, é uma professora que decide morar na rua porque não estava feliz com a convivência familiar. Dorme em locais públicos e é conhecida nes redondezas, mas defende a liberdade conquistada a partir dessa decisão. Reencontra o neto adulto, que a reconhece e mostra uma foto de quando era criança junto a ela, uma senhora “respeitável” mas que se submetia a dormir no sofá da casa da filha. O desaparecimento da avó lhe foi comunicado como morte e, ao reconhece-la, decide segui-la até se apresentar. Ela diz estar feliz e livre, o que ele duvida, porque sua aparência denunciava que não tinha onde manter hábitos civilizados de higiene. Mas ela o convida para um banho na fonte do parque, o que os reconcilia e faz acreditar que o novo modo de morar, mesmo miserável, a fazia feliz.

No outro esquete, um homem mais velho e sua mulher conversam na piscina da sua residência, representando estarem confortáveis e seguros. Mas em dado momento ele sugere um passeio à praia, ao qual ela reage porque antes havia resistência dele sobre sair, visto ser cadeirante e apresentar uma aparência de fragilidade. Ele afirma que “velhos têm medo de tudo” como argumento para essa dificuldade, mas que deseja aquele passeio. Já na areia da praia, ela come chocolates e fuma, o que ele manifesta interesse em desfrutar, mas ela nega em função da saúde frágil. Ela ouve música e dança, o que ele igualmente apenas observa. Mas, ao deixar a bolsa com todos esses elementos de prazer e dirigir-se ao mar, proporciona a ele as mesmas experiências que tanto desejou. Ao final, ela se afoga, sem alternativa de socorro pois ele, mais do que não ter mobilidade, dedica-se a superar todos os medos que o paralisavam até então.

Ambas as histórias sugerem que os condicionamentos advindos de pressões sociais, da fragilização da saúde e dos medos que adquirimos ao longo da vida podem tornar a velhice mais limitada, a não ser que o despertar da consciência sobre ser feliz redirecione as decisões para uma existência mais plena. Recentemente viralizou a história de uma americana idosa que, com câncer, optou pelo não tratamento da doença e por aproveitar o tempo que restava para viajar pelo mundo com o filho. Decisão que certamente seria mais difícil em fase mais jovem, por considerar compromissos com filhos, com carreira profissional e com outras relações sociais. Decidir como desejamos viver na velhice envolve o modo de morar, espaço composto por outras pessoas que, muitas vezes, imprimem igualmente desejos e necessidades, com o que é preciso conviver.

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