A decisão de morar só na velhice é sempre tomada por pessoas solitárias ou antissociais?

O mundo contemporâneo apresenta dados estatísticos sobre o aumento da longevidade e a queda da natalidade, fatores que determinam o crescimento da população idosa. Vale lembrar que a velhice não significa incapacidade, pois qualidade de vida depende sempre do investimento em saúde feito ao longo do ciclo de vida. As famílias são menores, os jovens preparam-se desde cedo para assumirem seus lugares no mundo do trabalho e as gerações mais velhas passam a ocupar imóveis igualmente menores, para uma ou duas pessoas. Não é à toa que os lançamentos imobiliários oferecem estúdios com áreas privativas muito restritas, sugerindo que as outras de uso comum oferecidas no edifício possam facilitar os relacionamentos sociais. Porém, a sociedade apresenta-se mais escrava do tempo e da tecnologia móvel, desenhando um cenário de solidão e individualidade.

E qual é a diferença entre solidão e individualidade? Lendo uma das muitas postagens inteligentes e instigantes de José Passarelli, engenheiro civil e professor de Campo Grande-MS, a do último 29 de setembro chamou especial atenção por traduzir um conceito de individualidade que enfatiza o amor, que pode acompanhar a decisão mesmo daqueles que preferem morar sós.

“O amor nada tem que ver com a outra pessoa que está com você. É tua maneira de sentir. O amor não é um relacionamento. Um relacionamento é possível; mas o amor não está limitado por ele: está além dele, é mais do que ele. O homem torna-se maduro na medida que começa a amar em vez de precisar. Começa então a transbordar, começa a partilhar, começa a dar. E quando duas pessoas maduras estão enamoradas uma da outra, realiza-se então um dos fenômenos mais esplêndidos da vida. Fundem-se uma na outra como se fossem uma só; contudo, sua união não destrói suas individualidades.”

Muitos casais se formam na maturidade, visto que, após separações ou viuvez, as pessoas estabelecem novos relacionamentos com menos cobranças sociais, em busca de parcerias que preencham os sentidos mais profundos da sua existência. Amar alguém e formar um casal não significa limitar as duas vidas, pelo contrário: são dois inteiros que decidem estar juntos, até mesmo em casas separadas, a depender das circunstâncias que caracterizam as dinâmicas individuais. Voltar ao compartilhamento da moradia com um familiar ou em um novo relacionamento impõe que tragam junto as lembranças de outras fases, e a tentativa de somar essa bagagem nem sempre pode resultar em uma solução harmônica e tranquila.

A decisão de morar só na velhice, mesmo amando um parceiro ou um familiar próximo, pode revelar o desejo de ser feliz pela manutenção da distância segura de controles já vividos e superados. Se houver a necessidade de um cuidado maior que exija a presença, que a convivência diária seja por mais amor ainda, aquele que compreende e que, simplesmente, ama sem precisar. O respeito à individualidade será a prova maior de que o tempo agrega valores, tornando os seres mais modulares em suas moradias.

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