Haverá total desapego dos objetos do lar se o idoso decide ir ou é levado para um residencial geriátrico?

Desde os primeiros textos deste blog, tenho discorrido sobre a necessidade de sermos flexíveis quanto ao nosso modo de morar, em especial na velhice. Ser modular é estar preparado para as mudanças biológicas naturais, mas também, é estar apto a compreender que o ciclo de vida e as circunstâncias familiares, além das econômicas e profissionais, provocam mudanças nem sempre controláveis. O ser humano é resiliente e capaz de sobreviver a situações de desconforto e carência. Porém, é indiscutível que demarca territórios para sentir-se abrigado e pertencente a grupos sociais com os quais se identifica. A moradia reflete claramente os valores que lhe são caros, seja pelos objetos que agrega à composição ou pelo modo como se apropria do espaço construído, definindo padrões de comportamento.

Pensando nisso, é possível afirmar que mudanças de moradia para idosos podem trazer sensação ainda maior de estranhamento e muita insegurança, pela falta de identificação com a própria história. Além disso, é preciso considerar adequações em mobiliário e espaços quando há perda de mobilidade ou outros sentidos, o que mantem o sentimento de autoproteção. A opção por um residencial especializado pode, sim, ser positiva quando houver a necessidade ou o desejo de cuidado profissional, já que os custos podem ser até mais adequados. Mas não há como negar que haverá um período de transição, seja pela mudança de rotinas ou pela ausência de lembranças significativas. José Passarelli, em sua página pessoal, discorreu sobre saudade:

“Entre todos os vocábulos, não deve haver nenhum tão comovente quanto a palavra portuguesa ‘saudade’. Ela traduz a lástima da ausência, a tristeza das separações, toda a escala da privação de entes e de objetos amados. É a palavra que se grava sobre os túmulos, a mensagem que se envia aos parentes, aos amigos. É o sentimento que o exilado tem pela pátria, o marinheiro pela família, os namorados separados um pelo outro. Saudade, sentimos da nossa casa, dos nossos livros, dos nossos amigos, da nossa infância, dos nossos dias idos.”

Defendo que os ambientes de residenciais para idosos possibilitem uma transição adequada e respeitosa com o apego que naturalmente se tem com objetos pessoais. Quando possível, alguns móveis devem acompanhar o morador, mantendo a familiaridade no novo lugar. Mais ainda, a decisão sobre como compor revestimentos e cores poderia ser conjunta, oferecendo opções que imprimam personalidade a este novo cenário, garantindo o sentimento de pertencer àquele lugar. Por razões econômicas, as alternativas compartilhadas são frequentes, o que determina que haja uma intermediação adequada para que o ambiente agrade a ambos os moradores, configurando um desafio a mais na transição para a nova moradia. Considerar o apego a objetos pessoais é tratar o indivíduo através dos seus valores, respeitando seus desejos e necessidades sentimentais. Só assim a mudança pode ser tranquila, apesar da saudade…

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