Comunidades que mantêm redes de apoio oferecem efetivo bem-estar a idosos que desejam morrer em casa?

Já abordamos experiências que descrevem redes de apoio comunitário, em especial apoiadas na confiança gerada por vizinhos que atuam como agentes integradores. Podem ser iniciativas espontâneas, mas em geral, são melhor organizadas quando há uma política pública que sistematize o seu funcionamento, principalmente por considerar a existência de recursos humanos e financeiros provenientes das esferas governamentais. Em qualquer situação, um fator é fundamental para o sucesso das redes: a solidariedade não é negociável, ela deve existir naturalmente e caracterizar uma prática constante, com vistas ao bem de toda a comunidade.

O filme Insubstituível (França, 2016) conta a história do médico de família em uma pequena cidade do interior, cujo consultório na própria casa é frequentado pelos membros da comunidade. A cada situação fica demonstrada a confiança que conquistou ao longo dos muitos anos atendendo a chamados e orientando as equipes de apoio. Trabalha sozinho até ser obrigado a tratar um câncer, o que o obriga à quimioterapia que o fragiliza, mas mesmo assim, recusa-se a parar. Seu oncologista indica uma médica assistente, que enfrenta sua resistência e insiste em atender as muitas demandas dos moradores da cidade, incluindo a mãe de Jean-Pierre, uma idosa que mora só e exige a atenção carinhosa do filho, embora já tão requisitado.

Mas a história mais significativa envolvia um nonagenário acamado com doenças crônicas que, estando só e sem cuidadores familiares, contava com uma pequena rede de suporte à saúde. Era mantida constante vigilância para que tivesse conforto até a morte em sua própria casa, desejo que exigira do médico com a promessa de evitar internações. Em uma de suas ausências em função do tratamento, a assistente decide leva-lo por julgar ser um alívio para seu sofrimento, pois a respiração estava fraca e em franco prejuízo. Ao saber dessa atitude ele se revolta, sentindo-se um traidor, pois seu desejo era dar àquelas pessoas a condição de maior conforto, mesmo que isso significasse uma redução na expectativa de vida. Afinal, viver menos, mas feliz, e por esse motivo sequestra o idoso hospitalizado em seu próprio carro, devolvendo-o ao seu ambiente original para que morresse em paz e acarinhado pelos amigos, situação que o ambiente frio do hospital tirara daquele idoso.

Essa história destaca que redes de apoio podem oferecer efetivo bem-estar a idosos mantidos na própria moradia. Sendo o protagonista um profissional que dedicava um tratamento humanizado aos seus pacientes, a promessa ao idoso se justificava mesmo que em detrimento dos recursos oferecidos pela tecnologia disponível no hospital. Para ele, saúde não era somente o tratamento da doença, mas, e principalmente, a noção de que o suporte social remedia a alma cujo corpo está em sofrimento. A presença dos vizinhos e amigos que se dedicavam ao cuidado de modo solidário comprovou que somos substituíveis, havendo lugar para todos que desejem compartilhar da incumbência de fazer o bem a outrem, mesmo na hora da morte.

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