Como são as datas festivas, tais como Natal e aniversários, para idosos que vivem sozinhos em suas casas?

Morar sozinho é uma tendência contemporânea para pessoas solteiras, separadas por divórcio ou viúvas, especialmente quando não têm filhos ou eles constroem seus próprios lares. Algumas vezes há conflitos familiares que afastam pais e filhos, tornando os encontros raros e difíceis. Assim, podem mergulhar na solidão, já que ter objetivos estimula à atividade e ameniza sentimentos que desenvolvam mágoas, rancores e falta de amor pela vida.

Assim é com dona Regina, personagem de Fernanda Montenegro no filme O  Outro Lado da Rua (Brasil, 2004), conforme foi descrita pela crítica:

“… uma mulher de 65 anos de idade, dotada de sinceridade em excesso e ácido senso de humor. Tais atributos a tornam uma pessoa isolada, pouco apreciada e sem amigos. Seu convívio social restringe-se à cadelinha Betina e ao neto, que ela apanha esporadicamente na escola, já que mal fala com o filho e tem horror aos idosos do bairro, que passam os dias a jogar dominó.”

Ocupa seu tempo informando a polícia sobre pequenos delitos que observa por onde passa, utilizando até um binóculo pela janela do seu apartamento. Presencia o que pensou ser o assassinato de uma mulher, moradora do edifício em frente, pelo marido, que injeta alguma substância letal; mas o delegado constata que a esposa tinha câncer e a desmoraliza. Na busca de provas que comprometessem o vizinho, personagem vivido por Raul Cortez, ela se arrisca aproximando-se e mente sobre morar do outro lado da rua. Mas acaba por se envolver com o suposto assassino e resolve levá-lo à sua casa, quando ele se dá conta da mentira e a rejeita. Inconformada, revê seus conceitos e diminui sua resistência às outras pessoas, incluindo sua própria família.

A imagem mais significativa construída na trama retrata os momentos com o neto, quando se mostra uma mulher afetuosa, mas que mantém distância do filho que mora com seu ex-marido, o que considera imperdoável. Após apaixonar-se e perceber a real dimensão de sua vida solitária, reverte essa situação e comparece ao aniversário do neto, abraçando seu filho silenciosa e ternamente. A seguir, pede perdão ao vizinho, demonstrando seu desejo de mudança.

Muitas relações sociais, sejam familiares ou apenas de vizinhança, são permeadas por conflitos e atitudes endurecidas pelo rancor. Também o preconceito e a não aceitação das próprias limitações faz com que o outro seja visto como menor, desprezível ou suspeito. A solidão impede o envolvimento em comemorações que, apesar do forte apelo comercial, servem especialmente para o arrefecimento de mágoas em encontros importantes para o senso de pertencimento. Afinal, não há como evitar experiências pouco desejáveis destes encontros, mas mesmo assim, importantes para elencar quem, efetivamente, compõe nossos afetos. Quaisquer pessoas, especialmente idosos, podem morar sós, mas não devem viver sós, sob pena de perderem momentos importantes de confraternização.

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