Unidades habitacionais em condomínios exclusivos para idosos podem receber moradores mais jovens?

O preconceito com residenciais para idosos, oficialmente denominados Instituições de Longa Permanência para Idosos e associados aos antigos asilos, ainda é muito significativo no Brasil. Tenho insistido que considero urgente pensarmos em residenciais para idosos com características mais apropriadas para diferentes situações de velhice, pois é heterogênea e já não é mais aceitável pensarmos que a permanência em casa seja obrigatória, mesmo quando há dependências que exijam cuidado, ou que a única alternativa seja a internação em ILPIs com tipologias hospitalares e ainda vistas como asilos. Nonagenários continuam ativos e a cada novo recenseamento registra-se o aumento de centenários: portanto, é mais do que necessário discutir novos modos de morar na velhice.

No filme Em Seu Lugar (EUA, 2005), um condomínio para idosos na Flórida demonstra o quanto a autonomia é importante e pode ser estimulada entre os próprios moradores. A história é sobre duas irmãs: Maggie (Cameron Diaz) e Rose (Toni Collette), com temperamentos muito diferentes e que reencontram a avó materna Ella (Shirley MacLaine), há muito afastada delas pelo pai em função de conflitos familiares. A primeira a procurar a avó é a desajustada Maggie, que precisa se sustentar para permanecer no condomínio, morando com ela. Assim, emprega-se como cuidadora no setor de idosos dependentes do mesmo residencial, onde cria vínculos com outros moradores. Rose chega depois, em busca de resgatar a irmã que havia expulsado de sua casa após uma briga. A presença da avó, que as duas irmãs julgavam morta, traz lembranças de infância com a mãe suicida, e ambas reavaliam suas histórias de vida, em especial pelo apoio do grupo de vizinhos idosos que acompanham esse processo de resgate familiar, pois têm o hábito de programarem diversões juntos. Nesse contexto, a irmã antes irresponsável se transforma, e a outra, tensa e quase antissocial, percebe o quanto precisa de amigos e relações mais leves para viver bem. Antes de mudar para a casa da avó já pedira demissão para cuidar de cachorros por um tempo, depois de percorrer uma carreira bem-sucedida como advogada, mas sem alegria e com baixíssima autoestima.

Ambas aprendem com a experiência dos moradores daquela comunidade, idosos ativos e dedicados uns aos outros. Na verdade, há uma troca entre todos: o idoso frágil para quem Maggie lia frequentemente (e que descobriu que ela tinha dificuldades por dislexia…), falece mas deixa a marca do seu respeito pela dedicação que ela demonstrou, fator que a transforma e faz com que reconheça seu próprio valor. Ou seja: a troca de experiências pode ser enriquecedora a todos, pois encontros intergeracionais baseados em respeito mútuo certamente são positivos sempre. Condomínios para idosos podem receber moradores mais jovens, desde que participem das trocas possíveis e contribuam para o enriquecimento destas relações, tão mais ricas quanto mais intensas sejam as oportunidades de convivência. A exclusividade pode caracterizar o que conhecemos como asilos, e isso já ficou no passado.

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