Somos capazes de enxergar criticamente o lugar onde vivemos para que fique ainda melhor na velhice?

As moradias normalmente refletem os desejos e as necessidades dos seus usuários, até mesmo quando há uma família numerosa. Destacam-se características de um e de outro, com ênfase nos ambientes privativos, quando ficam claras as diferenças entre as pessoas. Apesar disso, as mudanças ao longo da vida podem exigir novas perspectivas, embora nem sempre estejamos atentos para isso. Encontrei um relato que me fez refletir a respeito disso (https://opoderdaleituracom.wordpress.com/2017/08/27/vende-se-olavo-bilac/), embora a autoria não esteja esclarecida.

Certa vez, um grande amigo do poeta Olavo Bilac queria muito vender uma propriedade, um sítio que lhe dava muito trabalho e despesa. Reclamava que era um homem sem sorte, pois as suas propriedades davam-lhe muitas dores de cabeça e não valia a pena conservá-las. Pediu então ao amigo poeta para redigir o anúncio de venda do seu sítio, pois acreditava que, se ele descrevesse a sua propriedade com palavras bonitas, seria muito fácil vendê-la. E assim Olavo Bilac, que conhecia muito bem o sítio do amigo, redigiu o seguinte texto:

“Vende-se encantadora propriedade onde cantam os pássaros, ao amanhecer, no extenso arvoredo. É cortada por cristalinas e refrescantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda.”

Meses depois, o poeta encontrou o seu amigo e perguntou-lhe se tinha vendido a propriedade.

“Nem pensei mais nisso”, respondeu ele. “Quando li o anúncio que você escreveu, percebi a maravilha que eu possuía.”

Algumas vezes, só conseguimos enxergar o que possuímos quando pegamos emprestados os olhos alheios.

O conceito de ambiência ficou claro nesse relato, pois considera o espaço físico, mas também o emocional, que é imaterial e intangível, podendo ser percebido se houver uma mudança de perspectiva no olhar. Nos acostumamos a objetos que fazem parte do nosso dia-a-dia e servem a propósitos nem sempre mantidos ao longo da vida. Trazemos lembranças de viagens, ganhamos presentes que se incorporam às composições dos ambientes e definimos estéticas que atendem aos desejos de momentos específicos em histórias particulares. Mas… reavaliamos criticamente para constatarmos se continuam aceitáveis ou, até mesmo, desejáveis?

Renovar não quer dizer apenas mudar tudo para sermos outros. Significa tornar novo o que desejamos, em especial quando os desejos se relacionam com viver bem, com conforto e segurança. Aquele sofá com tecido clarinho já apresenta marcas de uso? Troque o revestimento, não o móvel. Aquela cristaleira já provocou esbarrões? Troque de lugar e use para outras finalidades, reinvente seu móvel. A vida é feita de recomeços a cada dia, sempre um novo projeto para encontrar a paz e a felicidade tão desejável na moradia.

4 comments on “Somos capazes de enxergar criticamente o lugar onde vivemos para que fique ainda melhor na velhice?

    • Ana, “tirar” alguém de casa sempre pode ser incômodo se não houver concordância e um processo de transição adequado. Quando falo que a permanência em casa deve ser preferível, é preciso avaliar a condição de autonomia ou a estrutura de cuidado compatível, caso contrário é preferível procurar uma solução que agrade a todos. Neste texto falei sobre a necessária atualização da moradia para que sejam mantidos móveis e objetos efetivamente úteis, e para que a renovação anime os usuários para que criem novos objetivos. Obrigada por participar!

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