Moradias institucionais podem oferecer espaços de socialização tais como os das antigas residências de seus moradores?

Fazendo parte do grupo de professoras incumbidas de avaliar a tese de doutorado do arq. Emmanuel Pedroso, apresentada à UFRJ nesta semana, tive o privilégio de conhecer os resultados da pesquisa que ele intitulou “Intervalos do Apego”, referindo-se aos interstícios entre o sujeito e seus objetos, elementos identitários que denunciam relações de afeto de idosos com o lugar que ocupam em moradias institucionais, uma brasileira e outra portuguesa. Através de uma metodologia minuciosamente definida, e de modo muito delicado, ele entrevistou, individualmente e em grupos, aqueles que se dispuseram a apontar móveis, objetos e espaços que consideravam significativos nas suas rotinas. A escolha dessas moradias em São Paulo e Lisboa justificou-se pela semelhança de atitudes, previsível em função da cultura e que se comprovou no levantamento, embora tenha havido algumas pequenas diferenças no resultado final.

Chamou especial atenção o fato de o equipamento português fazer parte de um conjunto que engloba uma igreja católica e uma pré-escola e, mesmo assim, haver pouco ou quase nada em trocas intergeracionais, o que parece um desperdício de recursos que poderiam aumentar o senso de pertencimento e a qualidade de vida. Ao considerar as trocas possíveis, tem-se a curiosidade e a vivacidade das crianças somadas à experiência e à sabedoria dos idosos, um “caldo” capaz de gerar produtos úteis e valiosos. No entanto, percebe-se que os próprios moradores refletem um preconceito latente na sociedade como um todo, que é o da institucionalização como solução para destinar idosos sem suporte social e/ou financeiro, apontando para um caminho de isolamento e solidão. Além disso, esse encaminhamento resulta em duplo impacto com a mudança, como descrito pelo autor: primeiro, deixar para trás o lugar que construiu e com o qual tem total familiaridade; depois, conviver com pessoas desconhecidas e que estarão igualmente alijadas dos seus espaços de vida originais.

Criar novos vínculos nem sempre é fácil e depende sobremaneira do estímulo recebido no novo contexto, de modo a superar os impactos dessa transição de modo efetivo. Talvez por esse motivo os dormitórios ofereçam maior número de elementos identitários além dos que podem ser portados para outros ambientes tais como dispositivos de apoio e bolsas com objetos pessoais. O pesquisador também percebeu que é frequente o cuidado com a aparência ao constatar que muitos se arrumam para sair dos seus ambientes privados na direção de espaços compartilhados, um deslocamento que justifica o preparo para os encontros. Igualmente constatou que as duas instituições promovem atividades de socialização e entretenimento, enfatizando no Brasil o estímulo ao protagonismo dos moradores. Mas ainda é preciso repensar meios para aumentar a permeabilidade das relações desses indivíduos com a sociedade externa aos limites da moradia: afinal, por que esconder a velhice, parte da vida de todos nós?

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