Por que muitos idosos têm dificuldades para reformular a composição de móveis e elementos das suas moradias?

O desejo de mudar nem sempre transpõe o medo de errar, o que acaba por impactar negativamente as iniciativas de renovação dos ambientes. Em geral, elas acontecem quando não há mais como usar, em função do desgaste ou por mecanismos de acionamento estragados. Mas há outro fator que paralisa essas decisões, que vai além das dificuldades técnicas que exigiriam a contratação de um profissional para um projeto adequado de arquitetura de interiores: o que não se pode ver angustia, já que projetos são sempre futuro e, portanto, intangíveis. E quando se convive muito tempo com uma composição que agradou ou com a qual se está acostumado, repensar a solução pode ser uma tarefa difícil, especialmente para moradores idosos.

Ao refletir sobre o limite entre a ousadia de mudar e o medo de errar, encontrei a sábia definição do poeta Manoel de Barros, publicada em Livro sobre Nada (Rio de Janeiro, Record, 2009):

“O olho vê, a lembrança revê, a imaginação transvê. É preciso transver o mundo.”

A interpretação do texto é direta e simples. O que vemos realizado será sempre mais convincente e essa é a razão de lojas criarem cenários que simulam os ambientes residenciais, chegando a requintes com o acréscimo de acessórios e elementos casuais para representar momentos de trabalho, relax ou outras atividades. Então, o que o olho vê em uma composição sugerida já facilita o impulso de aceita-la, embora nem sempre a transposição para o ambiente da moradia seja adequada em função de tamanhos, modificação de cores pela luz, facilidade na manutenção ou outros aspectos importantes, desconsiderados no momento da aquisição. Se nessa composição há alguns objetos que complementariam ou modificariam uma outra pré-existente, já existe o desejo de mudar, mas considerando que bastam algumas alterações para que se tenha um novo resultado. Nesse caso, a lembrança revê o que já incomoda pela mesmice, mas mantem intactos os elementos que têm valor de qualquer natureza, seja pela utilidade, origem ou, simplesmente, pelo prazer estético que aquela peça da composição traz ao contexto. Mas o que instiga a mudar de modo mais significativo é, sem dúvida, imaginar o impacto de novas formas e cores, suscitando experiências instigantes. Aí se insere a função social da arte, que provoca sentimentos e instiga o apreciador a compartilhar suas emoções. Também a percepção de outras texturas e cores, provocando a curiosidade e o desejo de novas descobertas. Transver, como disse o poeta…

Ver, rever e transver: uma reflexão que pode ajudar aqueles que já sentem o desconforto das composições sempre iguais e querem inovar, já que não se mudam móveis de uma casa sem considerar os motivos que os colocaram lá. Temos objetos de estimação, mas que podem ser atualizados, assim como é preciso levar em conta os custos e a real necessidade das trocas. Móveis e elementos da moradia podem ser renovados com a simples mudança de cores ou posições, trazendo mais alegria aos espaços de vida.

2 comments on “Por que muitos idosos têm dificuldades para reformular a composição de móveis e elementos das suas moradias?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.