A permanência de um indivíduo na mesma casa durante várias gerações pode limitar sua capacidade de ser modular?

Uma das definições para o conceito de Aging in Place é a permanência na mesma casa ao longo do envelhecimento. Porém, também se considera permanecer onde haja familiaridade, visto que o lugar vai além da unidade habitacional, já que moramos em um contexto mais amplo que envolve um território compartilhado com vizinhos e sujeitos que atendem em serviços diversos. Há situações em que o mesmo imóvel abriga famílias grandes que vão alternando gerações e, apesar de a história ser mantida pela presença de registros de cada época, pode haver uma tendência à acomodação em torno dessa segurança gerada pela garantia da propriedade.

No filme “A Família” (Itália, 1987), obra-prima do diretor Ettore Scola, o protagonista narra sua vida desde os primeiros dias até o aniversário de 80 anos. Assim está descrito (www.adorocinema.com/filmes/filme-2636/):

“No batismo de Carlo, em 1906, seu avô lembra ao seu pai que Carlo significa “homem livre”. Sem nunca sair de dentro da casa, os cômodos guardam as lembranças dessa família. Seu irmão mais novo, sua esposa Beatrice e sua cunhada Adriana fazem parte do dilema de Carlo: conforto ou paixão. Ele nunca conseguiu decidir até que fosse tarde demais.”

A cada novo período, quando novos personagens passam a fazer (ou deixar de fazer…) parte da história, é filmado o mesmo percurso ao longo do corredor de acesso aos diversos ambientes da casa e na sala de estar, quando se percebe a mudança de tempo pela alteração de alguns elementos da composição, tais como os revestimentos de parede, móveis e objetos, marcando cada nova fase. O máximo que se vê além do interior da residência é o corredor de acesso do edifício ou o outro lado da rua visto pela sacada da sala. Portanto, sugere que Carlo, professor universitário de línguas, apenas sai para o trabalho em alguns períodos mas mantem-se muito tempo em casa, inclusive ministrando aulas particulares.

A família é complexa, incluindo três tias solteiras que acompanham boa parte da trajetória e têm temperamentos exaltados, o que anima os ambientes mesmo que com discussões e pequenos dramas barulhentos. A cada morte, a ambiência na moradia se transforma, assim como a cada criança que integra os novos arranjos que se estabelecem. Aos poucos o grupo vai diminuindo, sendo que o protagonista passa a morar só, embora sempre visitado pelos familiares.

Essa reflexão sugere que a acomodação em imóveis mantidos em família pode ser tão limitante que torne o morador refém do imóvel que recebe de herança. Mais do que a questão patrimonial, é preciso considerar o peso da tradição, tão significativa a ponto de limitar a capacidade de renovação, fator importante para que se tenha a necessária flexibilidade exigida pela juventude. É importante preservar boas construções e reconhecer que registros de histórias familiares documentam trajetórias de vida, mas que isso não impeça a evolução dos modos de morar de cada geração.

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