A perspectiva de estabelecer novos relacionamentos de amizade pode motivar alguns idosos a mudarem para moradias institucionais?

Sou tutora de estágio de algumas turmas do quarto ano no curso de Gerontologia da USP e atuo em Instituições de Longa Permanência para Idosos, através de convênios estabelecidos entre essas organizações. Ao longo desses quase 10 anos com essas experiências, observar os motivos que levam idosos a morar em ILPIs demonstrou que podemos elencar algumas hipóteses sobre o assunto.

Em primeiro lugar, o motivo mais recorrente é a decisão da família em contratar os serviços de moradias privadas, quando há condição financeira para esse investimento, normalmente por questões de adequação para cuidados profissionais, exigidos quando há fragilidade, demência ou dificuldades de relacionamento. Nem sempre o indivíduo central participa dessa decisão, ou é convencido diante de argumentos que não lhe dão alternativas de escolha. Nesse caso, encontramos idosos “conformados” em sair das suas moradias originais por “preferirem” não incomodar filhos e netos, mas lamentando estarem no fim da vida. Fica muito evidente a contrariedade com a nova condição.

Outro motivo é a ausência de parentes próximos, por estarem distantes em outros estados ou países, o que justifica a garantia de assistência com segurança e conforto. Geralmente a mudança fragiliza vínculos com amigos e vizinhos, diminuindo e até eliminando as oportunidades de visitantes, pois nem sempre é possível permanecer no mesmo bairro. A saudade e o sentimento de “abandono” que podem surgir estabelecem riscos de diminuição da autoestima e do senso de pertencimento, mesmo que haja estratégias para um acolhimento carinhoso e dedicado.

Mais raramente, encontramos idosos que afirmam terem decidido pela mudança, por perceberem a necessidade de uma assistência profissional e preferirem não contar com cuidadores na própria casa, pois há sempre o risco de faltas ou ameaças à privacidade, em especial pela dificuldade de se encontrarem serviços adequados. Além disso, o declínio natural na fase da velhice sugere que esse cuidado possa ser cada vez mais dedicado e, portanto, será necessária uma equipe, aumentando exponencialmente o investimento financeiro. A consciência de que o prazer de viver depende de respeitar os próprios limites, permite reconhecer quando e como a assistência ao cuidado deva ser adotada e, certamente, é preciso planejamento para que não haja decepções.

Em todos os casos, o que claramente pode ser verificado é a possibilidade de novos relacionamentos de amizade, pois os motivos podem ser diferentes, mas a trajetória é semelhante. E quando há capacidade cognitiva e energia suficientes para garantir a autonomia, dedicar-se ao outro através do auxílio físico ou da simples escuta pode, ainda, proporcionar experiências gratificantes para a manutenção da autoestima. O que importa é manter objetivos, pois a alegria de viver é um tônico importante para a produção de subjetividades.

4 comments on “A perspectiva de estabelecer novos relacionamentos de amizade pode motivar alguns idosos a mudarem para moradias institucionais?

  1. Ser “encaminhado” pela familia sem ser ouvido é o pior dos mundos, ir em busca de novos relacionamentos é o melhor, mostra claramente que resta vontade de viver, ter amigos é tudo. E isto nāo se aplica apenas a aqueles que vāo para Ilpis, mas para todos os idosos que nāo tem mais turma. É vital ter uma turma, estar em sua “tribo”

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