Morar só, pode resultar em falta de percepção para o surgimento de fragilidades e prejudicar o autocuidado?

A permanência na própria residência é sempre preferível, especialmente se houver suporte social e autonomia para continuar atividades produtivas que mantenham a autoestima em alta. O imóvel pode estar adequado para oferecer conforto, agregando dispositivos à medida em que algumas fragilidades possam ameaçar a segurança quando os sentidos passem a declinar. Mas em que momento isso é percebido? Nem sempre cuidados pessoais se mantêm quando o idoso mora só, e durante muito tempo, no mesmo lugar.

No filme “Lucky” (EUA, 2017) encontramos o protagonista, assim chamado por ter sido sortudo ao servir à marinha americana cozinhando em navios de guerra, já com 90 anos e morando só. Tem amigos que encontra diariamente, com os quais comenta pouco sobre sua vida privada, mas ouve atentamente suas histórias pessoais: um deles sentia-se só e encontrou um amor na maturidade, outro tem um cágado de estimação que foge e o faz sofrer com a solidão. Tudo vai bem com a rotina de levantar cedo, fazer exercícios matinais e tomar café até que desmaia repentinamente, caindo na cozinha. Os exames apontam ótima saúde, apesar de fumar muito, mas o médico o alerta que a idade estava provocando a fragilidade. Passa a preocupar-se com isso e só então percebe que os relatos sobre solidão refletiam  sua própria vida solitária, confrontando-o com a morte.

Se o semblante endurecido ressalta as dificuldades da vida, assim como a postura aponta um homem de personalidade forte que jamais foge de uma discussão, seu olhar também revela a fragilidade da solidão, ampliada pela consciência e o medo do ocaso iminente.

Esse comentário (http://www.adorocinema.com/filmes/filme-248853/criticas-adorocinema/) destaca que o personagem reflete uma aparência ranzinza mas que, na verdade, apenas reflete sua tentativa de se manter no controle, que se desfaz após a inesperada queda. Passa a admitir seus sentimentos, “apresentando camadas de sensibilidade até então pouco perceptíveis”. O ator Harry Dean Stanton morreu aos 91 anos, no mesmo mês de lançamento do filme. A autenticidade como atuou reflete muito bem que pessoas longevas podem passar pelo mesmo drama a partir de eventos inesperados, e perceber-se na iminência da dependência e da morte pode trazer à tona o desejo de demonstrar temores, desejos e os mais íntimos sentimentos.

Pertencer a um grupo que se preocupa e demonstra interesse no bem-estar de um idoso comprova a importância de ser aceito socialmente, mesmo quando o comportamento é o de afastar pessoas que se propõem a ajudar. Atitudes de isolamento e antipatia podem parecer apenas demonstração de gênio, mas também precisam ser compreendidas como rejeição às fragilidades que estão impondo limites cada vez maiores. Familiares, amigos e vizinhos podem ajudar mostrando-se disponíveis nas dificuldades, mantendo o idoso incluído mesmo que aparente contrariedade, atentos aos momentos de maior necessidade. Um simples cumprimento e um sorriso farão toda a diferença.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.