Que lugares de uma moradia institucional para idosos devem ser qualificados para a construção de vínculos significativos?

Desde 2015, tenho produzido ensaios que abordam aspectos diversos sobre moradias para idosos, sempre considerando a unidade habitacional, o condomínio, o bairro e a cidade. Pesquiso sobre novas alternativas, visto que a longevidade está aumentando significativamente e a natalidade em queda determina que os cuidadores familiares já não estão disponíveis para oferecer a atenção necessária aos idosos dependentes. Portanto, pensar moradias institucionais que ofereçam serviços adequados às diferentes necessidades dos seus residentes depende de novas tecnologias, não somente referentes a automações, mas também considerando processos mais flexíveis e passíveis de atender especificidades.

A pesquisa intitulada “Avaliação da percepção dos usuários de Instituições de Longa Permanência para Idosos” foi desenvolvida na cidade de Pelotas-RS pela arquiteta MsC. Carolina Costa Machado, sob orientação da Profa. Dra. Natalia Naoumova. Diversos aspectos importantes geraram a dissertação de mestrado recém defendida, com a comparação em três diferentes moradias institucionais, além de trazer como referência a percepção de idosos não institucionalizados que pensaram sobre essa possibilidade. Foi utilizado o modelo da Gerontologia Ambiental denominado “Visão Transacional das Pessoas Idosas em seus Ambientes, que leva em consideração a história de vida dos idosos e relaciona o bem-estar na velhice a dois processos integrados: pertencimento e agência”. De modo resumido, pertencimento diz respeito à condição de integrar-se ao lugar e sentir-se parte do grupo que o ocupa, e agência considera a capacidade de agir para garantia da própria autonomia. A pesquisa trouxe resultados relevantes, dentre os quais nesta reflexão destacam-se a identificação de elementos e atributos que geram bem-estar e a importância da autonomia ligada ao desejo de personalização dos ambientes.

Ficou patente que o dormitório é considerado o território efetivamente privado, mesmo quando compartilhado com outros residentes, e que a personalização é um meio para que haja o pertencimento, além de garantir a agência pela caracterização que identifica a personalidade de cada indivíduo. Nos ambientes de uso compartilhado os elementos tornam-se mais genéricos e nem sempre agradam a todos, embora o mesmo limite ocorra em qualquer ambiente de estar nas residências familiares onde habitam várias pessoas e de diferentes gerações. Chama a atenção o destaque aos corredores e varandas, onde efetivamente as pessoas se encontram e se relacionam, com palavras ou somente pequenos gestos, criando vínculos significativos. De fato, pouco valor se dá a esses lugares de transição, mas neles acontecem as ações que integram essas pessoas, tornando-as parte de um todo que busca conforto e segurança. Encontrar vizinhos e atualizar notícias é um modo de agir de acordo com seus desejos, mantendo ativas as relações sociais e possibilitando a continuação de uma vida significativa, mesmo limitada por alguma fragilidade.

3 comments on “Que lugares de uma moradia institucional para idosos devem ser qualificados para a construção de vínculos significativos?

  1. Devem ser ofertadas reais possibilidades pra necessidades essenciais sejam de cunho físico ou mental! Tenho apenas 72 anos mas já sinto “na pele”como diz o povo muitas dificuldades na parte motora e às vezes qto aspecto memória e cognitivo . As vezes, parece me que sinto , um pouco, de abandono apesar de vida ativa e social .

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    • Flora, a velhice pode ser vista positivamente se estivermos preparados para o decréscimo das capacidades, o que não deve ser motivo para aproveitarmos as oportunidades que ainda virão. O melhor dia de nossas vidas é o hoje, aguardando outro melhor ainda, que virá amanhã. É por esse motivo que defendo a necessidade de sermos modulares, ou seja, flexíveis para morarmos de modo digno, com conforto e segurança, atentos para o que efetivamente vale a pena. Obrigada pela participação, espero que goste também de outras reflexões que já foram publicadas desde 2015. Um abraço…

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      • Eu até não senti as dificuldades como vindas pela idade mais avançada. Acho que generalizei. Sempre tive dificuldades advindas de problemas de coluna ( desde adolescência é sempre tratando) e deficiências pulmonares. Acho que até agora tenho mais condições de tratamento – tenho tempo pra me tratar . O cansaço , muitas vezes, é devido ter muitas atividades diferentes . E , a gente acha que tem que dar conta de tudo

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