Qual a diferença em residenciais projetados por profissionais que compreendem as demandas dos idosos?

Com o aumento da longevidade, a percepção de que as mudanças na sociedade exigiriam ofertas de moradia para idosos fez surgir muitas propostas para satisfazer essa procura. Porém, muitas delas eram adaptações em antigos imóveis, mais parecendo pensionatos do que residenciais diferenciados que pudessem oferecer serviços de atenção que satisfizessem essas demandas. A velhice é heterogênea, ter uma equipe preparada para possíveis fragilidades dos moradores é fundamental. O ambiente construído pode ser um facilitador ou, ao contrário, oferecer riscos para quedas e isolamento social, a depender de como se pretende manter os moradores seguros e confortáveis.

Em Tentativas de Fazer Algo da Vida (Ed. Planeta, 2016), cujo protagonista idoso descreve diversos aspectos do residencial onde mora, há o registro da experiência holandesa que, até poucos anos atrás, construía novos edifícios para essa finalidade mas mudou a política pública para estimular a permanência do idoso junto à família, com serviços domiciliares. Ele, assim como outros moradores, teme voltar a morar com familiares, pois já se considera parte da comunidade onde vive, descrevendo-a ao longo dos relatos.

Enfim, os lares de idosos começaram a brotar por toda parte quarenta anos atrás. E tão deliciosamente espaçosos! Quartinhos de vinte e quatro metros quadrados, incluindo banheiro e um cantinho para a cozinha. Para casais, oito metros quadrados a mais para um quarto de dormir à parte. (…) A cozinha é composta de quatro armarinhos, dois em cima e dois embaixo, uma pia com tampo de um metro de fogão de duas bocas que só pode ser usado para fazer café e chá e esquentar leite. Cozinhar um ovo é tolerado. Há um pequeno banheiro com chuveiro. Vê-se que os construtores pensaram no público-alvo pelos apoios em lugares onde se pode cair e pela ausência de degraus. Os apartamentos têm uma sacada onde dá para pôr uma lata de lixo e pendurar um vaso de gerânios.

Apesar de demonstrar satisfação com a proposta, especialmente por oferecer condições de autonomia para manter o controle da própria vida, percebe deficiências geradas pela falta de previsão sobre as mudanças de comportamento que estariam por vir.

Nunca foi levado em conta que haveria uma frota de veículos sobre rodas. O elevador só suporta dois triciclos ou quatro andadores ao mesmo tempo. (…) No fim de cada ala, na ponta do prédio, há uma espécie de bay window com um banco. Embora raramente alguém se sente ali – a maioria dos moradores prefere ficar no salão de recreação no andar de baixo – muitos velhinhos não gostam que alguém de um outro andar vá “sem mais nem menos” sentar-se ali.

Estar atento às mudanças exige propostas flexíveis e que permitam ajustar as diferentes necessidades dos moradores ao longo do tempo. Nem sempre será possível uma atualização completa, mas bons projetos de arquitetura podem proporcionar mais qualidade de vida e a garantia de conforto a todos: profissionais que compreendem as demandas dos idosos farão essa diferença.

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