A setorização de um residencial para idosos por gênero ou outros critérios pode ser considerada excludente?

Uma discussão frequente, quando a organização de uma moradia institucional é colocada em pauta, refere-se ao alojamento de pessoas em processo de demência, quando o declínio da função cognitiva prejudica a memória e o raciocínio acarretam comportamentos inesperados e até impróprios no convívio com os que mantem autonomia. A questão não é somente “afastar” o idoso demenciado porque pode haver dificuldade no controle de atividades, mas também aceitar que outro morador pode desenvolver a impressão de que chegará a situações semelhantes, o que acarreta um desconforto emocional que geralmente leva a depressão e ansiedade. Assim, a decisão por agrupar indivíduos que exigem maior atenção, até porque a equipe será mais preparada para tal, encontra o compromisso de não criar guetos excludentes, mantendo a possibilidade de interação eventual e possibilitando a todos que decidam se aceitam ou não a convivência nesse cenário.

Nos Estados Unidos encontramos moradias para idosos independentes, para os que necessitam de assistência em até três atividades da vida diária e para os que exigem uma atenção maior, oferecendo suporte adequado mesmo quando há um avanço no declínio cognitivo ao possibilitar a mudança sempre que indicada. Ainda são encontrados residenciais que setorizam por gênero, separando grupos de homens, mulheres e casais, situação mais rara, mas ainda possível. Por outro lado, há outros para grupos específicos, inclusive direcionados ao público LGBT, recentemente acrescentando Q ao final que significa Queerque engloba todas as orientações e identidades, não especificando apenas uma delas. Na França existe uma proposta feminista, La Maison des Babayagas(http://br.rfi.fr/franca/20190530-babayagas-conheca-o-anti-asilo-feminista-que-revolucionou-acolhimento-de-seniores-na).

Baba Yaga, na mitologia eslava e russa, significa “fada”, “bruxa”, uma feiticeira solitária de mil disfarces, velha e poderosa, que monta dragões e se traveste sem restrições de gênero, tem um séquito de filhas e que pode ser “boa e má” ao mesmo tempo. 

Criada pela feminista Thérèse Clerc em 1999, foi inaugurada em Montreuil em 2013 fundamentada em auto-gestão, mesmo com pequena participação do Estado, valorizando a autonomia pessoal.

As senhoras devem se responsabilizar por sua vida, sua casa, seus projetos e seu futuro. (…) Isso significa que, sim, quando uma das Babayagas perde, por motivos de saúde, a autonomia física ou mental para continuar a se “autogerir”, ela precisa partir para uma das estruturas francesas destinadas ao acolhimento no fim de vida.

Seja como for, autonomia deve ser o motor que mantem o corpo em movimento e o desejo de viver, mesmo com a utilização de dispositivos de apoio. Moradias adequadas certamente podem conferir o máximo de aproveitamento das capacidades e, até mesmo, despertar novos desejos, inclusive o de viver com outras pessoas que tornamos uma “família por parte de vida”.

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