Moradias destinadas a grupos específicos de idosos podem oferecer maior conforto aos seus habitantes?

Há um dilema ético constantemente em discussão quando é abordada a segmentação por grupos em moradias institucionais: separar por sexo, por capacidade funcional e cognitiva ou por preferências, havendo sempre a consideração de se dar oportunidade para novos vínculos e a diversidade pode proporcionar experiências mais ricas. Parte-se do princípio da tolerância e da solidariedade, mas a trajetória cultural de cada indivíduo nem sempre garante que seja possível superar preconceitos.

Luis Lima, articulista da revista Época, reportou sobre a abertura de um residencial exclusivo para idosos LGBT na Espanha (https://epoca.globo.com/coluna-madri-tera-primeiro-abrigo-para-idosos-lgbt-23874238). A decisão política baseou-se na premência de solução para situações de preconceito e abandono, especialmente em função do legado deixado por quase quatro décadas durante a ditadura de Francisco Franco (1939-1975). Assim, foi considerada uma reparação de danos por parte do Estado espanhol, pois a inserção destes indivíduos em residenciais tradicionais apresentava alguma dificuldade.

Um lar de idosos tradicional pode ser justamente o lugar onde muitos LGBTs se encontrarão cara a cara com pessoas que os discriminam. (…) … o fenômeno da solidão dos LGBTs é diferente, já que, ao não corresponder com o padrão tradicional da família heterossexual, perdem um certo “tecido social protetor”. 

A velhice LGBT vivencia consequências do período histórico em que a ditadura influenciou a cultura da Espanha que, como no resto do mundo, tem experimentado maior flexibilidade quanto a raça, gênero e idade. Os testemunhos de candidatos às vagas ao novo residencial demonstram que não somente o preconceito os motiva, mas também os interesses comuns em atividades e assuntos a serem compartilhados.

Entre as motivações, diz que não quer passar os últimos dias de sua vida falando sobre filhos e netos (que ele não tem) com heterossexuais. “Acho que sou um pouquinho heterofóbico. Me desculpem”, brinca. Ainda diz que se sentirá mais protegido da homofobia e do bullying e que também quer poder “jogar bingo gay”, que “é muito mais divertido do que o hetero”.

A seleção de candidatos seguirá critérios a partir da manifestação de interesse ao serviço social da Comunidade de Madri, compondo uma lista de espera. Para as 62 vagas, 45 são públicas e destinadas para pessoas com alto grau de dependência física ou vulnerabilidade econômica e cinco vagas serão privadas, para quem puder pagar. Também haverá até 12 vagas para pessoas à beira da morte, na chamada área paliativa localizada no quarto e último andar. Homens e mulheres que se enquadram no perfil e têm interesse poderão usufruir dessa política pública, uma importante iniciativa para utilizar imóveis ociosos com destinação a habitações de interesse social. Os governos municipais podem seguir esse exemplo, planejando e engajando lideranças comunitárias.

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