Qual a real expectativa de que idosos coabitantes em um mesmo residencial possam estabelecer vínculos significativos?

Muitos residenciais apoiam sua publicidade no fato de que, em seus estabelecimentos, todos os moradores poderão fazer amigos e viver felizes como em suas próprias casas. Seria acreditar que não há diferenças culturais e experiências de vida variadas para supor que, na velhice, todos se assemelham em desejos e necessidades. Além disso, as condições de saúde podem estar comprometidas a ponto de dificultar a comunicação, tal como na perda de audição de pessoas que compartilham a mesa de refeições, exigindo falar mais alto ou evitando qualquer possibilidade de conversa.

As perdas cognitivas igualmente podem resultar em comportamentos que afastam outros moradores, mesmo quando tentam compreender que há um motivo para que aconteçam. Porém, a possibilidade de estarem na mesma situação em um futuro incerto acaba por fazer com que evitem a convivência, um modo de negação dessa realidade possível. A dificuldade de interagir com outros moradores, sejam quais forem os motivos, resulta na busca de estratégias de convivência que sejam compatíveis com o temperamento de cada um. Alguns mantêm uma aproximação relativa, com pouca interação e mantendo somente a formalidade dos cumprimentos. Outros encontram pares e formam pequenos grupos parceiros em atividades, mas há também os que se empenham em interações ativas, inclusive estimulando para que haja colaboração entre os convivas.

Para os gestores, equipe de cuidado e animadores, trabalhar meios de aproximar as pessoas para que haja a possibilidade de criarem-se vínculos significativos é uma missão bem delicada. Exige atenção sobre as preferências culturais e histórias de vida, o que pode determinar quais indivíduos têm alguma chance de resgatar reminiscências importantes para coloca-los próximos nas atividades propostas. Ao convidar para que participem, saber o quê e em que medida algum detalhe pode interessar certamente estimulará a adesão, não bastando dizer que é bom e que ele vai gostar. Para muitos, atividades em grupo não agradam porque sentem-se mais um, o que pode tornar o afastamento cada vez mais frequente, chegando à desistência de conviver com outros moradores.

É desejável que formem laços de amizade, mas também é importante conhecer quais são as pessoas importantes que eventualmente visitam esses moradores em residenciais de idosos. Apenas coloca-los juntos à mesa, nas refeições, ou em atividades práticas de grupo, não garante interação mesmo sendo uma oportunidade. É preciso descobrir o que chamaria sua atenção para além do que está à sua frente, ampliando a perspectiva ao olhar em volta. Amigos há poucos ao longo da vida e, mesmo à distância, a verdadeira amizade pode manter-se e proporcionar momentos de reencontro satisfatórios. Solidariedade, companheirismo, empatia e tolerância, esses são sentimentos que realmente podem manter pessoas diferentes em convivências diárias, nem sempre desejadas, mas que despertam a atenção para o universo ao redor.

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