Como os residenciais para idosos acolhem as famílias que deixam seus parentes demenciados para serem cuidados?

Os impactos gerados pela mudança de um idoso que deixa sua habitação original para morar em um residencial especializado envolvem levar consigo apenas alguns itens pessoais e passar a conviver com pessoas desconhecidas, tanto outros moradores quanto os colaboradores que exercem as atividades de cuidado. Se um idoso com demência perde paulatinamente as memórias mais recentes, prevalecendo reminiscências mais remotas, pode-se imaginar que não sofrerá com a mudança, pois mesmo antes já estranhava as pessoas, mesmo familiares. Além disso, possíveis comportamentos antissociais serão enfrentados por profissionais treinados, portanto com menos riscos de sofrimento para o próprio idoso.

Para os familiares e outros cuidadores informais, conviver com o processo de demência pode causar muitos impactos ao longo das etapas que se sucedem, a começar pelo estranhamento de não ser reconhecido. No filme Viver Duas Vezes (Espanha, 2019), o protagonista é um professor universitário de matemática, viúvo, que se gaba de ter um raciocínio lógico que o destacou na carreira profissional, além de manter uma organização de objetos que memorizou para facilitar suas rotinas. Não utiliza smartphones ou outros aparelhos eletrônicos, pois afirma que “fritam” o cérebro, teoria contestada pela neta pré-adolescente que o confronta ao saber que o avô tem Alzheimer.

A história chega a ser divertida, apesar do tema dramático, e o filme tem poucas críticas elogiosas quanto ao roteiro. Mas apresenta questões importantes sobre a convivência entre gerações, em especial da filha amorosa que quer cuidar do pai e acredita que pode acompanhar todo o processo mesmo quando ele cria situações incômodas. Também a neta, que parece compreender o avô melhor do que a própria filha, criando uma cumplicidade inesperada a partir do motivo que os aproxima, uma viagem em busca de um antigo amor.

Há dois momentos do filme que sugerem com delicadeza o quanto o processo da doença pode causar sofrimento. O primeiro é a perda da memória como se as imagens fossem desaparecendo, o que é demonstrado em um muro por onde ele passa diariamente e há uma paisagem pintada que começa a escorrer e misturar as tintas. O segundo momento é quando, no último teste feito no hospital, o pai não consegue responder quanto é trinta menos três, o que para ele era uma pergunta humilhante, antes. Ali, ao seu lado, a filha chora ao perceber que foi incapaz de ajuda-lo a conter a demência, o que tentou de diversas formas e acreditava ser capaz de conseguir.

Ao deixarem seus parentes idosos demenciados em residenciais, muitas famílias enfrentam conflitos sobre essa decisão, geralmente muito acertada pela escolha pelo cuidado profissional mais adequado. Estratégias para amenizar o sofrimento e o sentimento de culpa são um importante meio para mantê-los presentes na vida dos moradores, fator fundamental para que seja plena até o fim, mesmo em lembranças remotas, mas felizes.

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