Em que proporção o isolamento social vertical coloca os idosos em risco de contágio pela COVID-19?

O atual cenário de pandemia tem demonstrado o quanto é importante que os órgãos de regulação estejam atentos para ações alternativas que amenizem o significativo impacto da doença. Além da terrível possibilidade de levar à morte muitas pessoas, há um número limitado de vagas para atendimento, considerando as condições logísticas e os recursos humanos para o enfrentamento efetivo. Isso envolve traslados, ocupação de leitos hospitalares, profissionais de saúde disponíveis e remoção para enterros, serviços hoje sobrecarregados sem ter havido tempo para estratégias melhor planejadas. A experiência tem demonstrado que o grupo de risco envolve idosos e pessoas com comorbidades, mas já sinaliza que recém-nascidos e mesmo quem não apresentava nenhum desses indicativos também estão sujeitos às formas graves da doença. Também há relatos de médicos que apontam um aprendizado diário, a partir de tentativas com diferentes tratamentos e a observação de sequelas deixadas em pacientes recuperados.

A proposta de isolamento social vertical, mantendo isolados somente os que compõem o grupo de risco, já começa equivocada diante da realidade que tem sido vivenciada. Se forem liberados todos os que estariam “saudáveis” para trabalhar, esses trariam o contágio para seus ambientes, por mais que houvesse cuidados de prevenção, pois a disseminação é muito rápida e principalmente ocorre por via aérea. Usar água e sabão é importante sem dúvida, mas evitar o contato físico não garante a pureza do ambiente, seja pela respiração, pelos objetos que são trazidos ou pelos calçados, exigindo um controle extremo de higiene. Portanto, o risco de expansão do vírus é iminente. Mas há um aspecto que chama a atenção de muitos especialistas: a proposta sugere proteção ou determina que pessoas do grupo de risco são menos importantes, destacando-se o preconceito sobre a manutenção dos idosos no seio da sociedade?

Recentemente, foi divulgada a carta-manifesto do ator Flávio Migliaccio, que se suicidou aos 85 anos, desiludido com a situação da velhice no Brasil. A jornalista Cynara Menezes registra que ele já apresentava sinais de revolta utilizando sua arte (https://www.brasil247.com/blog/a-carta-manifesto-de-flavio-migliaccio-e-um-alerta-sobre-o-mundo-em-que-vivemos):

Sua última peça, Confissões de Um Senhor de Idade, que ele mesmo escreveu, dirigiu e protagonizou em 2017, mostra exatamente isso: um ser humano no final da jornada olhando para dentro de si e tentando entender, digerir a trajetória que o levou até ali.

A polêmica que se criou diz respeito ao risco de a divulgação da mensagem piorar o estado emocional de muitos que estão com medo da doença, saudades dos seus e sentindo a falta do afago e da atenção que antes podiam ter presencialmente. Mas desperta para a reflexão de aprimorar a atenção ao modo como nos relacionamos com a aceitação da velhice e nos colocamos diante dela. É preciso ser modular para nossas escolhas e decisões, sempre…

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