Como reconfigurar a imagem de que a velhice somente trará perdas e infelicidade?

Até recentemente, idosos eram representados de modos antagônicos, ora em situação de extrema fragilidade com dispositivos de apoio ou em imagens de grande vitalidade como incansáveis esportistas. Mesmo sendo possíveis as duas imagens, é preciso lembrar que a velhice é heterogênea e depende da história de vida de cada indivíduo, possibilitando as mais diversas condições de saúde. Uma pessoa com 65 anos pode ter comorbidades importantes que o tornam mais frágil, assim como um centenário pode estar ativo física e cognitivamente, com capacidades preservadas que garantem sua autonomia. 

A imagem da velhice já foi representada em ícones de sinalização através de uma figura apoiada numa bengala, objeto que foi derrubado recentemente e substituído pela inscrição 60+. Em propagandas publicitárias, a imagem de jovens e sarados prevalecia, até que o mercado percebeu o potencial de consumidores mais velhos, e passou a focar também em modelos idosos. Mas o preconceito com a imagem do velho não é só praticado por jovens, quase como se fosse imprescindível aparentar o declínio físico quando não for mais possível disfarça-lo, um valor irrecuperável e gerador de frustrações.

A psicanalista Andrea Ladislau traz reflexões importantes sobre o preconceito com a velhice  (https://portalplena.com/vamos-discutir/e-quando-o-preconceito-com-a-velhice-esta-nos-proprios-idosos/), postado por Ana Cláudia Vargas.

Psicanaliticamente, a rejeição da velhice pelos próprios idosos fixa-se na baixa autoestima e nos preconceitos enraizados no próprio discurso. Associam tristeza e amargura ao ganho de idade, muito por conta do medo de ficarem isolados e solitários no fim da vida.

O medo do abandono está muito associado às moradias institucionais, e isso mantem a imagem de que sejam lugares para o fim de vida. A ideia de ser cuidado pode gerar a sensação de que é preciso mostrar fragilidade, dependência e tristeza. Desse modo, a imagem de que todo idoso é resmungão e teimoso acaba por ficar arraigada no imaginário popular.

O preconceito com a idade torna amarga e doída a passagem do
tempo. Rouba a liberdade e ajuda a criar rótulos descartáveis para o ser humano, desmerecendo valores e informações relevantes da memória de cada um.

Em tempos de profundas reflexões sobre as transformações da sociedade impostas por uma dura quarentena e pelo medo da morte, o cuidado com os idosos tornou-se mais visível e demonstrou que antes havia pouca empatia com esses indivíduos. A não ser aqueles que trabalham diretamente com questões da Gerontologia ou os que cuidam de familiares mais longevos, a atenção voltada para a velhice era considerada secundária, sendo a fase final da vida e quando o ócio é totalmente justificável. É preciso reconfigurar essa imagem de perdas e infelicidade, valorizando a experiência de vida, o desejo de conviver com pessoas queridas e a possibilidade de tomar decisões sobre a própria vida, mesmo com limitações.

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