Idosos institucionalizados resgatam memórias felizes quando lembram da moradia original?

Idosos moradores em instituições de longa permanência levam poucos elementos das suas residências originais, pois geralmente já existe mobiliário suficiente e o compartilhamento oferece pouco espaço para objetos pessoais. Representa um dos impactos mais significativos nessa transição: deixar para trás lembranças que fazem parte das suas histórias pessoais. O outro impacto significativo é o de conviver com pessoas e objetos estranhos, até que haja familiaridade ao longo de algum tempo. Mesmo havendo um relaxamento nesse sentido, ainda assim os momentos importantes da história de cada indivíduo são associados a lugares, em especial os de moradia.

A série de cinco filmes brasileiros que compõem a mostra audiovisual on-line denominada Retratos Poéticos da Velhice (https://www.itaucultural.org.br/secoes/agenda-cultural/retratos-poeticos-velhice-compoem-mostra-audiovisual), parte da agenda cultural do Itaú para agosto deste ano, apresenta diferentes perspectivas da velhice em vários contextos, mas sempre com ênfase no vazio da ausência de alguém querido.

Em A Volta para Casa, com atuação sempre magistral de Lima Duarte, em festejo de Páscoa no residencial onde mora, Plínio aguarda os filhos, que não vêm. O jardineiro o leva para sua casa original, onde encontra um edifício construído e tem lembranças de lá. O amigo o leva para sua própria casa e ele, agradecido, o presenteia com uma pequena peça de madeira que tinha feito para os filhos. A surpresa está em o expectador descobrir que essa não fora a primeira vez, sendo a casa apenas uma referência do que vivera antigamente.

Submarino apresenta um idoso de 85 anos que perdeu o companheiro e, para mantê-lo sempre presente em casa, envia flores e mensagens a si mesmo, simulando encontros para almoçar. Destaca-se a criação de uma página em rede social como se ele estivesse vivo, o que incomoda a filha do outro, que o obriga a apagar. Mesmo assim, entrega um presente para a neta, compactuando com a ilusão de que o avô continua presente, mas através do companheiro que vive só e com saudades dos momentos em família.

Em AcúmuloPela Janela e Girimunho, o retrato de mulheres que enxergam o mundo pelos elementos da paisagem, seja catando objetos para serem consertados pelo marido que já faleceu, seja pela janela do carro em viagem para novos destinos ou pela perspectiva de outras gerações, que sonham novos voos. Em todos há a saudade, o desejo de manter rotinas e a dificuldade de se abrir para o novo, mesmo quando é possível romper com a tristeza.

Moradias institucionais são uma solução positiva para idosos que necessitam cuidados, sem depender de familiares e mantendo a segurança nas rotinas do dia a dia, desde que os vínculos continuem e até sejam consolidados. Também é importante que dependências não sejam aprendidas, tirando o brilho dos objetivos atingidos e do prazer de sentir o valor da própria história. Se não é possível manter-se na moradia original, que as ações possam ocupar o tempo de modo produtivo, apesar das perdas, da saudade e das lembranças.

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