Por que reorganizar espaços da moradia custa tanto a ponto de manterem-se objetos que não são úteis?

Ao longo da vida são adquiridos produtos necessários para as rotinas diárias, seja no vestuário, em artigos de higiene, em utensílios de cozinha e em objetos que justifiquem a estadia em casa, tais como móveis e rouparia da casa em geral. Só para esse enxoval básico já é necessário espaço de armazenamento e organização para o fluxo diário, mas em muitos casos chega a haver acúmulo de objetos inúteis ou que foram úteis no passado e permanecem guardados para voltarem à utilidade em algum momento desconhecido. A racionalidade para perceber como e quando descartar os excessos é uma característica de poucos, gerando uma tendência à acomodação.

Simone de Beauvoir afirmou que viver como todo mundo e ser como ninguém é o segredo da felicidade. Ser comum nos hábitos, mas mantendo ideias próprias de como prefere viver, pode realmente determinar mudanças nem sempre fáceis de encarar, em especial quando a velhice chega. O medo do novo, do desconhecido, é chamado de misoneísmo que, segundo o dicionário Michaelis, é a “aversão sistemática às inovações ou a toda transformação do estado atual”, também conhecido como neofobia. Há relatos de que o idoso se torna um acumulador quando viveu períodos de carência material, chegando a limites de se tornar um transtorno psiquiátrico, com sofrimento e sérios riscos à manutenção da higiene.

Para os que permanecem envelhecendo na própria casa, a dificuldade de mudar o leiaute de móveis ou de substituí-los por outros mais adequados demonstra o quanto reconhecem aquele como seu território, mesmo quando há desgastes ou a possibilidade de aumentar o conforto. O brasileiro mais velho tem dificuldade para descartar objetos e certa vez ouvi a teoria de que muitos viveram as notícias da 2grande guerra mundial, que obrigou os europeus a armazenarem suprimentos, valorizarem o pouco que dispunham para sobreviver àquele período de tantas incertezas e recomeçarem com o pouco que sobrou. Talvez as novas gerações de idosos tenham outra postura sobre a racionalidade dos ambientes que os cercam, até porque os dispositivos tecnológicos estejam mais acessíveis e sendo atualizados com mais frequência, o que facilita a descartabilidade do que não mais atenda às necessidades rotineiras.

Móveis e objetos restaurados ou mantidos como peças de valor sentimental podem ser utilizados de outro modo que não o original, assim como os itens de rouparia, pessoal ou da casa. Mas excessos podem prejudicar a funcionalidade dos espaços, assim como aumentam a necessidade de organização, limpeza e áreas de armazenamento. Além disso, a transição para uma moradia institucional, quando houver essa decisão, pode ser menos impactante se já houver o exercício do desapego, considerando até os descartes com retorno financeiro ou com a satisfação de doar objetos a quem possa necessitar deles. Reorganizar os espaços da moradia pode ser mais fácil se houver a compreensão de que é o morador o personagem principal desse cenário, principalmente sendo idoso e sujeito a fragilidades.

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