Quais são os riscos de desgaste nas relações quando um idoso passa a morar com os filhos?

A decisão de institucionalizar um idoso geralmente está relacionada à necessidade de cuidados especializados, tão mais complexos quanto mais avançada esteja a condição de debilidade física ou cognitiva. Para os que mantêm um bom desempenho das suas atividades é importante que tomem a decisão de como desejam morar, sempre de acordo com a manutenção dos vínculos sociais importantes para seu suporte, especialmente o emocional. Mesmo com a boa intenção de prestar assistência ao seu familiar idoso, muitos filhos acabam por tomar decisões que lhes tira a autonomia, correndo o risco de desgastar uma relação consolidada pela vida, mas que pode se tornar prejudicial para todos os envolvidos.

No filme “Uma Relação Delicada” (Hungria, 2020), a decisão unilateral da filha em relação ao futuro da mãe demonstra claramente o quanto é importante buscar o consenso em situações definidas como proteção e apoio (https://www.papodecinema.com.br/trailers/trailer-uma-relacao-delicada/).

Iza é médica, vive numa grande cidade e decide que a mãe, Anna, recentemente viúva, deve morar com ela para não ficar sozinha. Mas, o ato aparentemente de afeto da filha logo se revela uma experiência sufocante para a mãe, e a convivência faz com que o relacionamento entre elas, ambas de personalidades fortes, entre em colapso. 

Há um relato sobre um caso semelhante, mas com desfecho positivo. Com a intenção de apoiar a mãe idosa para que não ficasse só, os filhos decidem consensualmente que ela passaria a morar com a família da filha, sendo preservada de cuidar de atividades domésticas e podendo “descansar”. Ocorre que muitas das atividades preenchiam seu tempo livre prazerosamente, e isso lhe foi tirado. Aos poucos ela passou a falar menos e se isolar, sugerindo um processo de demência. Porém, ao consultar um geriatra e fazer os testes de cognição, o diagnóstico foi outro: ela não se sentia parte, estava desmotivada e calou-se pela falta de protagonismo na residência dos familiares, que desejavam protege-la. O médico sugeriu que procurassem uma moradia coletiva para que tivesse a possibilidade de criar novos vínculos e buscasse outra perspectiva de futuro, visto que tivera uma vida intensa como mãe e esposa, além de interesses e conhecimentos captados em viagens e vida social intensa. Ela acompanhou as visitas e escolheu onde preferia morar, o que determinou um novo ânimo e sentimento de retomada da própria vida, resgatando o poder de decisão que fora tirado. Com isso, voltou a interagir e, com as visitas diárias da filha, manteve um vínculo fundamental com seu passado, demonstrando estar mais feliz.

É necessário contar com novas soluções de moradia, tanto quanto planejar a velhice com antecedência, para que a transição não seja traumática, evitando desgastes nas relações familiares. Mesmo quando a melhor decisão envolver o compartilhamento da mesma residência, é preciso garantir privacidade e individualidade, deixando a possibilidade de que certas atividades sejam mantidas, se houver o desejo e a condição para tal. 

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