Como evitar os impactos que podem acometer idosos que se percebem sós?

A percepção ambiental é um processo multifatorial, pois depende de aspectos físicos relacionados ao ambiente construído, mas também às emoções que se estabelecem na utilização desses espaços. Também está relacionada ao senso de pertencimento que determina a inclusão do indivíduo em um grupo, desde a família, amigos, vizinhos ou outros moradores em residenciais coletivos. Somam-se a essa interpretação as histórias de vida de cada pessoa, tão mais representativas quanto mais longeva ela seja, certamente portando mais elementos na memória a partir das experiências vividas ao longo da vida. 

Nesse contexto, sentir-se só está associado com os ambientes sociais, nos quais pessoas próximas de idosos “flutuam” por quaisquer motivos e muitas delas desaparecem, enquanto outras passam a ser imprescindíveis e permanecem à disposição. Mas há uma diferença entre estar só e sentir-se solitário, pois mesmo em contextos de muitas pessoas pode haver sentimento de solidão e abandono. O geriatra e professor Rubens De Fraga Jr. comenta os resultados de uma pesquisa que desvenda os impactos na expectativa de vida, publicados no artigo intitulado Loneliness and health expectancy among older adults: A longitudinal population-based study (https://sbgg.org.br/wp-content/uploads/2021/07/COMENTADOS-JUNHO-2021-fv.docx-1.pdf).

Os resultados do estudo mostram que as pessoas de 60 anos que se percebem às vezes como sozinhas ou principalmente solitárias podem esperar viver de três a cinco anos a menos, em média, em comparação com seus pares que se percebem como nunca solitários. 

A expectativa de vida diminui ainda mais quanto mais avança a idade, o que pode estar associado com a necessidade de atenção e à percepção da passagem do tempo. Nesse sentido, é imprescindível que o preenchimento do tempo livre esteja associado à presença de pessoas que sinalizem a disposição de comunicarem-se, seja por adesão a atividades ou mesmo pela atenção em pequenos gestos que demonstrem interesse pelo outro. Não raro as salas de TV dos residenciais para idosos estão ocupadas por moradores que mal acompanham a programação, enquanto diálogos entre cuidadores se sobrepõem ao volume do aparelho. Esses idosos não estão sós, mas estão solitários e, mesmo quando há quadros de demência, outros atributos podem integrá-los ao ambiente social. Mesmo em residências unifamiliares, não basta ter o idoso junto da família, é preciso interagir com ele.

Música ambiente, em espaços distantes de salas de TV, pode resgatar reminiscências e trazer motivação, inclusive provocando interações entre os diversos atores sociais. Sons acidentais, como pássaros e água em movimento, podem sugerir um passeio agradável, especialmente em jardins que provoquem sensações além das despertadas pela visão. Promover experiências vividas isoladamente ou com outras pessoas distrai e cria sensações que estimulam à participação, oferecendo à pessoa idosa o prazer de decidir sobre seu território de vida, afastando os efeitos nefastos da solidão.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.