Que mudanças urbanas poderão trazer melhores condições de uso da cidade para os idosos?

Cidades são planejadas pela perspectiva de equipes multiprofissionais capitaneadas por arquitetos, que integram as diversas premissas que definem seu crescimento. Mas para o arquiteto Joaquim Guedes, como registrado por Renato Anelli (https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/09.099/117), “a cidade real é insubmissa às vontades do arquiteto, exigindo dele entender os seus conflitos e conciliar suas ideias com a sociedade real, reinventando-se permanentemente”. A sociedade real é composta por cidadãos de diferentes raças, idades e gêneros, em diversos contextos socioeconômicos, que define regiões e caracteriza necessidades. A pandemia pelo coronavírus repentinamente alterou muito dessa ordem, desde a evidência de locais que preservem o necessário distanciamento social até a perda financeira, que obrigou muitos a mudanças para outras regiões.

Em entrevista ao geógrafo Eduardo Sombini para a Folha de São Paulo (08/08/2021), a arquiteta Paola Viganò aponta essa mudança intitulando esta nova perspectiva como “urbanismo da coexistência”.

Hoje, nós entendemos a cidade como uma acumulação enorme de energia – não só energia social, mas energia incorporada e recursos, muitas vezes de fontes não renováveis. É muito importante que comecemos a reutilizar e valorizar [o meio construído] em vez de imaginarmos demolir tudo.

Neste “meio construído” estão os espaços verdes, organizados e mantidos pelos cidadãos e instituições governamentais, com vistas à condição de bem-estar de todos. Apesar dos conflitos entre a necessidade de ambientes saudáveis e da evolução urbana que aumenta o valor da terra, a preservação de áreas permeáveis e plantadas mantem praças e parques disponíveis para o necessário equilíbrio ambiental. Seu uso por pessoas idosas deve ser garantido pelo acesso facilitado em travessias e pavimentos adequados, além da oferta de mobiliário urbano disponível para os diversos usos, o que garante a convivência entre os cidadãos. Embora haja uma fragmentação social, visível principalmente nas grandes metrópoles, a diversidade evidencia a percepção de que todos esses habitantes costuram relacionamentos nos interstícios da malha urbana.

A transição socioecológica não vai ser resultado de uma estratégia de cima para baixo. Precisamos de uma mudança cultural, em que cada um entenda seu engajamento, porque ela não será dirigida só pelo Estado e por organizações internacionais.

As mudanças que os tempos de pandemia têm evidenciado são oportunidades para que os planejadores repensem sobre cidades mais amigas dos idosos, visto que assim serão melhores para todos. Ouvir os cidadãos determina que seus desejos sejam atendidos para além das necessidades, tornando os ambientes urbanos mais receptivos e adequados. Moramos nas cidades, e os espaços públicos são extensões que podem ser ocupadas para atender a diversidade dos seus habitantes. O urbanismo da coexistência é, a cada dia mais, uma realidade para a pós-pandemia.

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