Como pensar um bom mobiliário para ILPIs que mantenham a segurança e o conforto para idosos demenciados?

No último dia 1º de junho fui convidada a participar de um curso oferecido pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, destinado aos promotores de justiça que atendem denúncias de violência contra idosos, assim como profissionais da área de saúde e outros que atuam em ILPIs. O tema central foi a não contenção como garantia de direitos, ampliando uma discussão sobre os limites para o uso desse recurso como forma de proteção do idoso frágil ou demenciado. O enfermeiro Dr. Fábio Cimador, um dos palestrantes, atua na Azienda Sanitari Triestina, órgão que se assemelha à Anvisa brasileira na fiscalização para o funcionamento de Instituições de Longa Permanência para Idosos. Expôs que a não contenção é uma política pública e, mesmo reconhecendo a boa intenção de proteger, diversas iniciativas procuram inibir o uso de dispositivos que limitem a liberdade, buscando garantir direitos humanos e a qualidade da assistência sociossanitária. Atua em Trieste, cidade a nordeste da Itália, onde há uma proporção significativa de idosos: 30% dos 230 mil habitantes têm mais de 65 anos de idade, sendo que 5% estão em ILPIs, de onde são enviados dados sobre o cuidado diário.

Aprendi que conter o idoso ao amarrá-lo na cadeira ou na cama pode ser necessário quando há riscos de queda, no caso de apresentar fragilidade ou pouco equilíbrio. Também pode haver a necessidade de controle quando não há discernimento para levantar, pois o idoso pode escorregar. Há, ainda, situações de extrema agitação em determinadas fases da demência, incorrendo em riscos de danos físicos tanto do próprio idoso quanto do seu cuidador. A grade na cama pode evitar uma queda ao rolar, mas significa um elemento de contenção mecânica para aumentar a segurança e facilitar o tempo de reação pela equipe do cuidado. Há também a contenção física, ao se considerar um profissional segurando o paciente, e a química, quando a medicação é usada como inibidor dos reflexos e da força.

Em todos os casos, entendi que a contenção é um coadjuvante do cuidado, adotada quando os riscos assim a justificam. Mas entendi também que o limite entre a real necessidade e o uso abusivo pode incorrer em violência, tema central da discussão naquele momento, visto que é importante procurar soluções que garantam a segurança sem humilhação, o que me fez perceber o quanto a ergonomia, que estuda soluções que aumentem a produtividade com o menor esforço possível, é um caminho para isso quando se criam móveis adequados para o cuidado. Em Trieste foi criado o “leito Alzheimer”, uma cama que pode deslizar verticalmente e permanecer a uma altura apropriada para o manejo do cuidador mas, também, ser mantida muito próxima do chão para dormir, já que assim a queda não oferece risco de fratura, assim como sentar e tentar levantar sem apoio é praticamente impossível, sem utilizar grades. Ideia simples e eficiente, fácil de replicar em qualquer lugar. Reforça a importância de projetar móveis adequados, solução que melhora a qualidade de vida de idosos com dependência.

2 comments on “Como pensar um bom mobiliário para ILPIs que mantenham a segurança e o conforto para idosos demenciados?

  1. Prezada profª Maria Luisa. A sua presença foi muito importante neste evento do MPRJ, pois amplia as áreas profissionais que podem ajudar a pensar sobre as estratégias possíveis para se melhorar a qualidade dos cuidados prestados em Instituições de Longa Permanência. Os movimentos internacionais de luta pela abolição das práticas de contenção nos espaços destinados ao cuidado entendem que é necessário utilizar uma premissa de “Tolerância Zero” para qualquer prática de contenção. E este é um aspecto fundamental para essa luta e para a superação das intervenções que se associam à má-prática profissional nos espaços destinados aos cuidados de longo prazo. O uso de meios de contenção está muito mais associado ao desconhecimento dos profissionais e à carência de infraestrutura do que a questões relacionadas às condições clínicas funcionais ou cognitivas das pessoas idosas. Nesse sentido precisamos juntar esforços para mudar a cultura do cuidado a partir de premissas que considerem o respeito aos direitos humanos fundamentais, as questões jurídicas que envolvem este tema, os aspectos éticos e deontológicos e o desenvolimento das diversas tecnologias de cuidado que permitem fazer deste campo de ação um universo compatível com o terceiro milênio. Equipamentos assistivos, mobiliário, elementos de arquitetura, fazem parte de um arsenal muito rico e diversificado da tecnologia de cuidados e certamente a cada dia novas contribuições agregam elementos facilitadores de todo este processo. O “Leito Alzheimer” certamente é um deles, e na cidade de Trieste a norma técnica para o funcionamento de ILPIs exige que ao menos 10% dos leitos de cada instituição sejam deste modelo. O processo de aquisição destes equipamentos é facilitado, uma vez que é intermediado pela ASUITS, a secretaria de Saúde regional. Trata-se certamente de um reconhecimento político da importância das ILPIs no cenário da rede assistencial de cuidados de longo prazo e do reconhecimento da centralidade do usuário no planejamento do processo assistencial. Dentro deste conceito de centralidade, inclui-se tanto a questão dos direitos humanos quanto a definição do que deva ser considerado um “cuidado apropriado”. E não estamos falando de um modelo assistencial caro, que esbanja recursos… estamos falando de fornecer aquilo que é devido para quem de fato necessita… estamos falando de um modelo sócio-sanitário público que gerencia recursos utilizando concomitantemente conceitos de igualdade e equidade. Portanto, estamos falando de cidadania…Particularmente fico muito grata que esteja divulgando este tema em novos espaços…

    Arianna Kassiadou Menezes
    Médica geriatra da UFF – membro do Grupo da Tríplice Aliança que atua pela difusão da “Cultura de Não Contenção” e pela “Qualidade dos Cuidados de Longo Prazo”.

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    • Arianna, fico muito lisonjeada com sua intervenção e contribuição neste espaço, que é justamente um meio de refletir sobre os diversos aspectos que envolvem a moradia na velhice, de acordo com a necessidade de cada sujeito. Sabemos que a velhice é heterogênea e que a história de cada um criará as características das suas necessidades. Como manifestei publicamente no evento, o tema da não contenção era novo para mim e percebi a importância de elementos da arquitetura como coadjuvantes nessa questão. Portanto, estarei atenta ao que possa acrescentar a esta discussão e agradeço sempre que puder provocar temas em que eu possa contribuir. Grande abraço e até uma próxima oportunidade!

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