Por que um idoso que mora com outras pessoas muitas vezes continua sentindo-se solitário?

Morar envolve o ambiente físico, mas também sentir-se bem. Ambiências positivas requerem espaços bem dimensionados e equipamentos adequados, mas o encontro dos sujeitos que os compartilham deve ser humanizado, criativo e feliz. O risco de solidão, mesmo morando com familiares ou outros idosos, é sempre um aspecto a ser considerado para evitar sofrimento.

Segundo o historiador Leandro Karnal, é preciso encarar a solidão para compreendê-la. Em O Dilema do Porco Espinho (Ed. Planeta, 2018), adverte que a solidão pode ter vantagens, desde que seja uma decisão consciente. Porém, para muitos representa insegurança, tristeza e abandono, a ponto de preocupar governantes atentos ao crescente número de idosos solitários.

O governo da primeira-ministra Theresa May criou o chamado Ministério da Solidão. (…) Um número alarmante de 9 milhões de britânicos parece reclamar de frequente ou total solidão. Pessoas idosas, súditos com problemas de mobilidade e outros foram considerados as vítimas principais de um mal contemporâneo: a solidão. Isolamento social não é apenas uma percepção estranha ou situação atípica: transformou-se em verdadeira epidemia. O que estaria acontecendo no mundo para que o combate à solidão virasse uma política de Estado?

Na pesquisa realizada em três Centros de Acolhida Especiais para idosos, administrados por organizações sociais em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo, foram entrevistados diversos idosos que relataram não conseguirem mais morar com familiares, embora muitos deles reconhecessem que hábitos relacionados a bebidas e drogas tinham sido agravantes para esses conflitos. Porém, apontavam dificuldades também para criarem novos vínculos com outros moradores, sendo esse um dos grandes desafios no gerenciamento desses equipamentos. Mesmo em família, um idoso pode afastar-se progressivamente de outros moradores, sendo acusado de não se esforçar para convivências mais ativas.

Não é incomum que encontremos idosos em festas de família. O raro é encontrarmos essa pessoa perfeitamente enquadrada nas conversas da família. No geral, está sentada num canto, ouvindo os mais jovens ou nem isso. Foi levada ao encontro, mas não foi convidada a falar, não encontrou ninguém disposto a ouvir ou, depois de um tempo em que a situação se repete, ela própria talvez nem queira mais falar. O mundo que nos formou morre antes de nós. Quando nos tornamos velhos, nossas referências de mundo já caducaram. Alguém com 90 anos ouviu Carmen Miranda na infância. Com quem conversa sobre isso numa festa apenas com pessoas mais jovens?

Um idoso que mora com outras pessoas efetivamente pode deixar de sentir-se solitário se houver estímulo para participar das rotinas, mantendo objetivos e garantindo a autonomia que lhe garanta autoestima. A solidão positiva é aquela que nos dá o sossego necessário para tomar decisões e manter a tranquilidade para escolher com quem queremos estar, especialmente na velhice.

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