Quantas interpretações podem definir o que seja um lar?

Para alguns, lar representa amor em família, enquanto para outros é visto como o abrigo para intimidade, mesmo que compartilhado com outros moradores. Em Portugal, lar está associado a viver em instituições asilares, conceito que lembrava isolamento e que tem sido evitado a partir de transformações na assistência social a idosos vulneráveis. No âmbito doméstico, a ideia de “lar doce lar” nem sempre repercute positivamente, se associada a relevar idiossincrasias de conviventes e de limitar o território a espaços restritos, tais como dormitórios. Mesmo assim, esses espaços muitas vezes são também compartilhados por um casal, entre irmãos e, até, com familiares de outras gerações, o que torna ainda mais importante que haja harmonia e tolerância. A solução que algumas famílias adotam de manter seus parentes idosos próximos, para resolver a atenção que exigem, nem sempre oferece espaços privativos adequados, tornando a vida de todos sujeita a dificuldades de relacionamento.

Quando há rotinas fora de casa, essa situação fica amenizada pela variação de ambientes, o que pode compensar a frequência imposta pela convivência no mesmo domicílio. Encontrar outras pessoas pode acarretar experiências diárias estimulantes, mas a pandemia pela Covid-19 transformou as expectativas de encontros e atividades diferenciadas, muitas vezes acirrando conflitos que antes eram minimizados pelo afastamento temporário. Com isso, a moradia, vista como lar, tornou-se ainda mais importante, já que se tornou lugar de trabalho e de lazer, além de espaço para a recuperação da energia dispendida com os afazeres rotineiros. A jornalista Giane Guerra publicou uma reflexão muito significativa no jornal Zero Hora (31/07/2021):

O lar ganhou uma importância incrível na pandemia. Foi onde ficamos mais tempo e nos protegemos. Não era mais só um lugar para dormir. Ele recebeu investimentos para ficar mais confortável ou saiu-se em busca de um que atendesse as novas necessidades. Por mais que se tenha saudade da rua e dos espaços compartilhados, houve um resgate da relevância da nossa casa.

A inclusão de equipamentos que facilitam as atividades de cozinhar e armazenar alimentos aumentou, geralmente mudando o tempo dedicado por soluções familiares que adotaram a divisão de tarefas. A permanência em casa exigiu mais dedicação à limpeza e organização, implicando em revisão do papel de cada morador a partir dessa perspectiva de bem-estar. Mais tempo em casa e a falta de opções de lazer acarretaram maior adesão a programas de TV e pacotes de streaming, além de outras possibilidades em jogos eletrônicos. Apesar disso, os jogos de mesa e outros meios de diversão coletiva foram resgatados, atendendo os interesses de pessoas de diversas gerações.

O lar passou a ser visto como lugar de refúgio, mas também de convivência. Também de descobertas, a partir da revisão de conceitos individuais sobre os relacionamentos. Desejos e necessidades passaram a ser prioridade, assim como a certeza de que todos estão envelhecendo e que o futuro pode ser planejado com antecedência, para uma velhice mais tranquila para todos. 

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