O que procuram os idosos que circulam pela cidade, além de compras e distração?

Falar sobre os atrativos que a cidade oferece pode ser mais interessante do que descrever os problemas para transpor as barreiras arquitetônicas que existem em profusão. Há espaços de descanso, apesar de calçadas estreitas que espremem os pedestres contra as fachadas. Há locais de travessia claramente definidos, apesar de o tempo do semáforo considerar que os transeuntes estejam sempre correndo. E há vitrines e fachadas comerciais coloridas e atraentes, apesar de o espaço para apreciá-las ser mais amplo quando estão dentro de shopping centers. Mas o que motiva as pessoas a saírem, mais do que para compras e distração, são os objetivos produtivos, geralmente relacionados a trabalho.

Em “Um Senhor Estagiário” (EUA, 2015), um viúvo aposentado de 70 anos vivido por Robert De Niro busca alternativas para preenchimento do tempo livre, após viajar muito e engajar-se em projetos com atividades físicas e culturais, entre outras opções que encontrou. Mesmo assim, ao descrever-se em um vídeo de apresentação exigido para concorrer à vaga de estagiário sênior, diz ter um vazio que precisa preencher e, portanto, a oportunidade o interessara. Aos poucos vai se colocando como alguém cuja experiência dá um suporte importante não somente em questões da empresa, mas também com colegas e com a própria chefe, vivida por Anne Hathaway. Não deixa de exercitar-se no parque, de sair com os jovens colegas de trabalho e de frequentar outros eventos sociais, hábitos já incorporados à sua rotina.

Pessoas idosas com o objetivo de manterem-se ou retornarem ao mercado de trabalho, seja para melhor utilização do tempo ou mesmo para reforçar o orçamento, têm aumentado a quantidade de transeuntes nas ruas e no transporte público, diversificando ainda mais o público que costura trajetos na malha urbana. E por que impor a eles a velocidade dos ansiosos, dos que estão construindo carreiras e aprendendo com os erros, até terem uma história de vida para atestar experiência? A cidade deve ser a extensão da moradia, o lugar do encontro e do estranhamento, onde se constroem histórias da vida cotidiana. Não importa a idade, o gênero, a classe social e o nível cultural, é a diversidade que imprime qualidade a essas histórias, que possibilita a surpresa do desconhecido e preenche a vida social.

A recente discussão sobre a reforma da previdência traz a público o que já é conhecido: aposentar-se com pouca idade apenas evidencia que a longevidade está a exigir uma nova relação com o trabalho, aquele que permite mais do que o simples retorno financeiro para uma sobrevivência digna, mas o que traz prazer e crescimento pessoal. O jovem profissional de hoje ousa buscar novas oportunidades quando percebe ser capaz de produzir mais, diferente do que acontecia com a geração que hoje é de idosos. Assim, mais ativos e experientes certamente estarão engrossando o contingente de trabalhadores que circulam na cidade, um motivo a mais para que seja amigável, segura e confortável.

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