Idosos solitários sempre são impertinentes ou podem ajudar desalentados a reencontrar a felicidade?

Quantas vezes ouvimos histórias em que vizinhos se colocam tão disponíveis que chegam a um estágio insustentável, incomodando mesmo quando encontros furtivos sugerem que será difícil se desvencilhar de longas conversas. Idosos desenvolvem uma percepção de tempo diferente, de acordo com atividades menos urgentes e passíveis de serem postergadas. Assim, são tachados de impertinentes e nem sempre são bem-sucedidos ao impor suas presenças, mesmo com o objetivo de agradar. Na animação La Cour (Canadá, 2016), é possível refletir sobre situações como essa (https://www.youtube.com/watch?v=3SjXg1WcYyU).

Um idoso aluga um imóvel vizinho ao seu para um homem aparentemente infeliz com seu trabalho, demonstrado pela desordem em que vive entre caixas e papéis, e pelo desânimo que quase o paralisa todas as manhãs. A constante presença desse idoso no seu espaço privado, no entanto, o incomoda a ponto de sentir-se invadido e desejar nem ser percebido, considerando uma rotina diária desestimulante e, portanto, cansativa. Em um desses encontros, ao acidentalmente derramar uma cobertura doce sobre esboços artísticos em papel, que o novo vizinho mantinha amontoados entre tantas caixas, o idoso tenta “limpar” e acaba piorando a situação, irritando o jovem desalentado, que o expulsa do seu apartamento. Essa atitude provoca um afastamento, resultando em um certo arrependimento do jovem artista por ter repelido o vizinho que, claramente, mostrava-se solitário e feliz por ter alguém com quem compartilhar alguns momentos de felicidade. Ao afrouxar sua resistência, volta-se para o conteúdo dos seus antigos esboços que, magicamente, o convidam a novas experiências artísticas, nas quais imerge completamente. O toque cômico fica com o final, que apresenta o idoso seguindo o rapaz, ou seja: não desistiu de busca-lo como conviva, visto que esse movimento diminui a solidão e dá sentido à sua vida.

Em edifícios geralmente há muitos idosos que, mesmo morando com familiares, passam os dias sozinhos em função de rotinas e obrigações laborais. Saem com animais de estimação, fazem compras no comércio da redondeza e caminham como exercício físico. Mas a transição entre o ambiente privado e o semipúblico, geralmente hall de elevadores e portarias, permite encontros entre vizinhos, nem sempre desejáveis pela diferentes dinâmicas de vida de cada pessoa e, também, pelas diferenças culturais que determinam comportamentos. Quando há aparente insistência em assuntos considerados menos importantes, a tentativa de socializar acaba por gerar no outro o desejo de “fugir”, evitando oportunidades indesejadas.

Idosos solitários nem sempre são impertinentes e podem ajudar desalentados a reencontrar a felicidade, pois o suporte comunitário não se caracteriza somente pela ajuda eventual ou por ações furtivas em cumprimentos rápidos, mesmo que gentis. Muitos precisam do olhar, do sorriso e da atenção para melhorar seu dia, em qualquer lugar e em qualquer idade.

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